Cinéfilos Eternos

segunda-feira, 5 de novembro de 2018

RAINHA DO MUNDO




Selecionado para vários festivais, inclusive Sundance e Rio, o filme é bem intimista e cheio de camadas. O foco é a amizade de Catherine (Elisabeth Moss) e Virgínia (Katherine Waterston).
Mesmo crescendo juntas, o quanto uma conhece a outra? O quanto você também conhece sua amiga de tantos anos? Se em alguma época houve tantos risos, tanta cumplicidade, talvez no decorrer do tempo e das vivências de cada uma, amigas podem tomar caminhos e ter opiniões e comportamentos hoje conflitantes. Estou escrevendo sobre amigas, no feminino, só por causa do filme. Mas o mesmo pode acontecer entre dois amigos homens, ou entre um homem e uma mulher, é claro. Muitas vezes resta somente um grande carinho pelo que foi, por todas as lembranças, mas fica difícil até de se conversar com certas pessoas. Ainda mais nesses tempos bicudos, não é?
Outra coisa que pode acontecer é que uma pessoa pode agir de maneira diversa, dependendo em que situação, em que lado está.
O norte-americano Alex Ross Perry é apontado como um diretor de um cinema que olha para o passado, não posso concordar nem discordar, porque acho que esse foi o primeiro filme que vi dele. Mas Queen of Earth com certeza alterna o que já foi com o presente. As duas amigas encontram-se na mesma casa de campo onde passaram um tempo no ano anterior. Rainha do Mundo é um drama de difícil interpretação e que aborda também as complexidades de uma depressão.
À primeira vista, vemos uma Virgínia preocupada com a fragilizada amiga que se encontra a ponto de ter um colapso nervoso, já que acabou de perder o pai, um artista famoso, e de terminar um relacionamento. Através de longos diálogos, vamos percebendo uma Ginny fria, que até mesmo repudia a carência e a dependência da amiga, em um verdadeiro desafio ético e moral para nós, espectadores. Vai se desenhando nas expressões de Virgínia um certo triunfo, uma espécie de prazer. Somos sem sentir colocados na posição de julgar. Há também uma névoa que impede de distinguir o quanto Catherine está doente ou se o seu sofrimento faz parte da sua personalidade mimada, como ela é acusada pelo namorado da Ginny. Mas certas cenas sugerem até uma preocupação genuína de Virgínia com a amiga, que parece a cada dia perder mais a sanidade e que talvez o que estamos vendo faça parte da imaginação de Catherine ou mesmo se trate de manipulação.
Intercalando de uma forma confusa as cenas do ano anterior, em que Catherine estava muito feliz e egocentrada, com cenas de alto teor psicológico, as duas personagens muito bem interpretadas indicam que estão nos seus limites, em uma tensão crescente, tudo isso muito bem mostrado pelos enquadramentos de suas expressões, tanto do desespero de uma quanto da passividade mórbida da outra. Um estranhamento devastador. Quem é a boazinha e quem é a má? Existe isso? Somos todos dotados de todas as faces? O filme caminha para um dramático desfecho. Afinal, se houve uma vingança, de quem foi?

IMDB: 6,3/ 10
Filmow: 3.3/ 5
Minha nota: 3,6/ 5

Ficha técnica:
Nome original: Queen of Earth
País: EUA
Ano: 2015
Direção: Alex Ross Perry.
Roteiro: Alex Ross Perry.
Elenco: Elisabeth Moss, Katherine Waterston.


domingo, 4 de novembro de 2018

INFILTRADO NA KLAN




A extraordinária história verídica do policial negro que se infiltrou na Ku Klux Klan. 
"Em uma fria manhã de novembro de 1978, o jovem policial americano Ron Stallworth deteve seu olhar em um classificado no jornal. "Ku Klux Klan. Para sua informação", dizia o anúncio, seguido de um endereço para envio de cartas.
Ele respondeu ao anúncio, imaginando que isso poderia levá-lo a uma investigação que daria um impulso em sua carreira de detetive.
Mas havia um detalhe: Stallworth, de 25 anos, era um homem negro querendo se infiltrar no grupo mais conhecido de supremacistas brancos dos Estados Unidos, famoso por suas perseguições racistas". (Fonte: BBC News, 14/08/2018)

O premiado filme do diretor Spike Lee baseia-se no livro que Stallworth publicou em 2014, detalhando como foi a operação para sua entrada na KKK e o momento em que conheceu seu polêmico líder, David Duke. 
Ícone do cinema afro-americano, Spike sempre abordou a temática racial abrindo as portas em Hollywood para uma conscientização sobre os problemas sociais do país.

No filme, Ron Stallworth é interpretado pelo ator John David Washington. John é o filho mais velho da atriz Pauletta Washington e do conhecido ator Denzel Washington, que interpretou Malcolm X, no outro filme de Spike Lee, sobre o líder afro-americano que tem o pai assassinado pela Klu Klux Klan e sua mãe internada por insanidade. Também jogador de futebol, John, em 2015, surpreendeu o público ao interpretar Ricky Jerret, no seriado Ballers, transmitido pela HBO.
Continuando: no filme Ron consegue se infiltrar na Ku Klux Klan local, comunicando-se por telefonemas e cartas. Mas havia um detalhe: Stallworth, de 25 anos, era um homem negro e volta e meia solicitavam sua presença física. Para isso, foi montado um esquema em que um outro policial branco, interpretado por Adam Driver, ia no seu lugar e era monitorado por ele. Seu prestígio dentro da seita foi aumentando tanto que tornou-se o líder dela. Um fator que influenciou sua reputação foi o fato de saberem que ele mantinha contato com ninguém menos que David Duke, um polêmico político americano, nacionalista branco, teórico da conspiração antissemita, negador do Holocausto e ex líder da Ku Klux Klan.
Em nome de Deus, os membros da Klan não só odiavam os negros, mas também os judeus e os homossexuais. Assim como eles, existem várias pessoas que defendem os direitos "brancos" até hoje! Em 2017 houve uma manifestação na Virgínia, EUA, que terminou em um conflito, inclusive com uma morte, mas Trump argumentou que o confronto se se deu porque houve violência dos dois lados, que nem todas as pessoas que estavam ali eram supremacistas brancos e nem neonazistas, que ali no meio haviam muitas pessoas DO BEM.
David Duke continua na política: “Trump nos empoderou. Foi o esmagador voto branco que o colocou na Casa Branca, e ele deveria se lembrar disso", diz o supremacista branco em entrevista. Após anos soterrada, a direita racista volta a aflorar nos EUA. Figuras como Duke, profundamente criticado em seu feudo na Louisiana, têm saído da obscuridade.(Fonte: El País, 20/08/2017).
IMDB: 7,7/ 10
Filmow: 4,3/ 5
Minha nota: 4/ 5

Ficha técnica: 
Nome original: BlacKkKlansman
País: EUA
Ano: 2018
Direção: Spike Lee
Roteiro: Spile Lee, outros.

Elenco: John David Washington, Adam Driver, Laura Harrier.


Ron Stallworth 




sábado, 3 de novembro de 2018

TRANSIT



Enquanto escrevo sobre um filme, procuro entender suas complexidades. Muitas vezes começo sem ter gostado tanto e acabo adorando. Algumas pessoas comentam que ficaram muito interessadas em ver depois do que eu expus, não sabem elas que eu também convenci a mim mesma da importância, ou da beleza, ou das duas coisas, do filme.
Petzold, Christian Petzold, faz parte dos diretores de cinema vivos por quem tenho admiração. O cineasta e roteirista alemão de 58 anos é considerado um dos principais expoentes do movimento cinematográfico contemporâneo conhecido como Escola de Berlim. Recebeu, entre outros prêmios, o Urso de Prata de melhor diretor no Festival de Berlim, em 2012, pelo filme Barbara.
Transit estreou no Festival Internacional de Cinema de Berlim em 17 de fevereiro deste ano.
A primeira coisa que quero entender é porquê ele usou a França da época atual para mostrar a ocupação da Alemanha nazista. Sim, a situação é a mesma, principalmente em Paris, as pessoas precisam fugir, negócios como hotéis são abandonados, famílias são separadas, na rua diversos homens com metralhadoras caçam suas vítimas, o desespero está instaurado! Como sei que é a época atual? Pelos carros modernos e todo o contexto. Talvez o diretor não tenha achado importante esses detalhes? Não creio. Ou talvez ele queira mostrar que a guerra continua, mesmo que invisível. O que vocês acham?
Georg (Franz Rogowski), o nosso personagem principal recebe uma missão de entregar uma carta para um escritor em um hotel próximo. Em troca de dinheiro e de um lugar em um carro para fugir de Paris. Chegando lá, ele toma conhecimento que o tal escritor se suicidou. De posso dos manuscritos e de seus documentos de identidade, ele consegue chegar em Marseille, mas deseja ir para o México.
Em Marseille, uma misteriosa mulher volta e meia passa por ele, chega a abordá-lo, talvez confundindo-o com alguém. Marie, na verdade, é a esposa do escritor e procura por ele. Georg começa a se apaixonar por ela. Quem interpreta Marie é a bela Paula Beer, com seus olhos expressivos, a mesma que fez a Anna, no filme de François Ozon, Frantz, lembram?
Bem, no meio a tantos problemas ocasionados por uma guerra, Petzold desenha esse drama. Marie não sabe que busca um fantasma. Georg está apaixonado por ela e quer tirá-la de lá e é o único que pode fazer isso, como o suposto marido dela. Mas como revelar isso para Marie?
Nem preciso dizer que me encantei com o filme, não é? Quem me conhece sabe que é exatamente esse tipo de história que me atrai, ainda mais feita com esse grau de experimentação. Só um diretor genial para ter essa ideia. Transit é baseada em uma novela de 1942. A história é a mesma da novela, os fascistas ocupando a França, mas não há carros blindados e sim policiais comuns pelas ruas do século XXI.
Uma história de fantasmas, amores, fugas e desencontros.
IMDB: 6,9/ 10
Filmow: ainda sem nota
Minha nota: 4/ 5
Ficha técnica:
Nome original: Transit.
Pais: Alemanha
Ano: 2018
Direção: Christian Petzold.
Roteiro: Christian Petzold.
Elenco: Franz Rogowski, Paula Beer, Godehard Giese, Alex Brendemuhl (Um Instante de Amor, O Médico Alemão)

quinta-feira, 25 de outubro de 2018

ANIVERSARIANTES

Joyeux anniversaire!Mathieu Amalric (Neuilly-sur-Seine, 25 de outubro de 1965) é um ator e cineasta francês. Recebeu o troféu César de melhor ator coadjuvante em 1997 pelo filme Comment je me suis disputé...(ma vie sexuelle), de Arnaud Desplechin, e depois duas vezes o de melhor ator: em 2005, por Rois et Reine, também de Arnaud Desplechin, e em 2008 por O Escafandro e a Borboleta, de Julian Schnabel.

terça-feira, 23 de outubro de 2018

CHET BAKER - A LENDA DO JAZZ




Quando conheci o Chet Baker (não pessoalmente!), ele já era feio. Mas como todos que o conheciam, fui envolvida imediatamente pelo som doce do seu trompete e pela sua voz, que parecia sussurrar. Morreu aos 58 anos com a aparência de 80, velho, enrugado, faces encovadas, acabado pelo seu envolvimento com drogas, especialmente a heroína. Mas nem sempre foi assim, na juventude arrebatou corações também pela sua beleza física e era chamado o James Dean do Jazz. Era considerado o gênio branco do jazz.
“Cuidado, há um gato branco e pequeno na Costa Oeste que vai comer você”,
teria dito Charlie Parker, o famoso Bird, acerca de Chet para Dizzy Gillespie. Baker era apenas um jovem de 22 anos que acabara de desertar do exército.
O filme Born To Be Blue, ou Chet Baker - A Lenda do Jazz, foi uma agradável surpresa que encontrei na Netflix. A cinebiografia não mostra a infância de Chet, que foi criado até os dez anos numa quinta em Oklahoma, filho de pai guitarrista e de mãe pianista. Nem o seu final de vida, quando foi encontrado morto após cair ou se jogar pela janela do hotel onde estava hospedado, em Amsterdam. Mas mostra sua vida nômade e desorganizada, sempre precisando de dinheiro e de afeto. Teve muitas mulheres: Charlaine, Halema, Diene, Ruth, Carol, ... O filme optou por sintetizar toda sua vida amorosa em uma personagem só: Jane, interpretada pela atriz Carmen Ejogo.
Chet é magistralmente interpretado por Ethan Hawke. O filme começa com Chet em uma prisão na Itália e depois ele é convidado para fazer um filme, uma cinebiografia, que é quando conhece Jane, que no filme também é sua mulher. Chet Baker, como James Dean, era uma espécie de "bad boy" e Hollywood quis que ele interpretasse ele mesmo. 
Mas aí ele foi preso.e eles mudaram a história um pouco, e colocaram Robert Wagner e Natalie Wood e chamaram o filme de All the Fine Young Cannibals.

Born To Be Blue alterna partes da vida real de Chet com cenas do filme que ele está fazendo, vai para trás e para a frente no tempo, do preto-e-branco para o colorido, então fica um pouco confuso se você não prestar bem a atenção. Há momentos em que não temos certeza de qual realidade estamos vendo, mas ficamos mesmo assim vidrados nas cenas.
Avesso às partituras, Chet preferia tocar de ouvido, um hábito que o acompanhou durante toda a sua carreira. O envolvimento de Chet com as drogas lhe trouxe todos os tipos de problemas familiares e profissionais. Ele foi preso muitas vezes, ficou em condicional. precisando arrumar um emprego fixo, como era a exigência. Passou por várias humilhações e sofrimento, porque era quase impossível tocar, após perder vários dentes em uma briga. Ele teve que acreditar e trabalhar duro. Ainda tinha que enfrentar suas crises de abstinência, que eram monitoradas por médicos e metadona.
A fotografia de Born To be Blue é linda e a forma como o Ethan se entregou ao personagem é comovente. Ele captou perfeitamente os pequenos gestos e sutilezas do grande astro do jazz, seu jeito melancólico e doce de falar e de cantar.
Baker alcançou grande notoriedade com sua primeira versão de My Funny Valentine.
♪ Stay little valentine. Stay. Each day is valentine's day♪
(Fique, namoradinha. Fique. Todo dia é dia dos namorados).

Ele ajudou a estabelecer o que viria a ser identificado como “cool jazz”: uma música econômica, de poucas notas, mais tranquila e fria, oposta ao bebop incendiário de Charlie Parker, Dizzy Gillespie e Bud Powell, cujos temas tinham ritmo veloz e fraseados cheios de notas.
As drogas e os escândalos ajudaram a tornar Chet um mito e também por destruir sua beleza. Mas o seu incrível talento cativou o mundo. Conhecer a vida dele é passar por uma experiência emocionante e devastadora. E certamente inesquecível!
Sofrendo com o medo de subir ao palco, ele tenta, às lágrimas, explicar a relação entre seu vício e tocar seu instrumento: "Isso me dá confiança", ele explica em um sussurro rouco. "O tempo se alarga, se expande, e eu posso entrar em cada nota."
Born To Be Blue é a história de amor que não conseguiu salvar Chet Baker.

IMDB: 6,9/ 10
Filmow: 3,7/ 5
Minha nota: 3,8/ 5

Ficha técnica:
Nome original: Born to Be Blue.
País: EUA
Ano: 2016
Direção: Robert Budreau
Roteiro: Robert Budreau

Elenco Ethan Hawke como Chet Baker, Carmen Ejogo, como Jane/ Elaine.
Chet Baker.
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segunda-feira, 22 de outubro de 2018

OS 33



Faz pouco tempo o mundo se emocionou com o resgate de 12 meninos e de seu técnico de futebol, presos por 17 dias em uma caverna na Tailândia.
Isso me lembrou do desmoronamento de uma mina em Capiapó, Chile. onde ficaram presos 33 mineradores a mais de 700 metros abaixo do nível do mar. O fato ocorreu em 2010 e emocionou o mundo igualmente mas, acho que com o passar do tempo, ou a gente vai se esquecendo ou até não acompanhou todos os detalhes. Ainda bem que existem os filmes para nos lembrar!
Em The 33, o líder Mario Sepúlveda é interpretado pelo ator Antonio Banderas. Os 33 homens, presos em um lugar chamado refúgio, são surpreendidos, além da tragédia, com o fato de que o local não tem as escadas que deveria ter, os medicamentos são pouquíssimos e a comida armazenada mal dará para três dias. Em meio ao nervosismo, o pânico, começam a brigar e Sepúlveda toma a frente para racionar os alimentos e injetar ânimo nos colegas. Rodrigo Santoro tem uma ótima participação filme no papel do Ministro da Energia Laurence Golborne, que foi decisivo para o sucesso do resgate, que durou 69 dias. Gabriel Byrne como o engenheiro chefe faz o possível para conseguir que os mineiros sejam resgatados, enfrentando dificuldades técnicas e o próprio tempo. Juliette Binoche é Maria Segovia, irmã de um dos mineiros. Por decisão do Ministro, ela e todos os familiares são acomodados do lado de fora, com refeitório, atendimento médico e até uma escola provisória para as crianças.
Não há como não se emocionar como o filme que, no entanto, passa longe de ser piegas. Ótimas atuações e riqueza de detalhes.
Contra tudo e contra todos, eles resolveram ter esperança:
"Acredito que sairemos daqui porque escolho acreditar." (Mario Sepúlveda)

Embora sob os olhos do mundo, a negligência, movida pela ganância que quase matou 33 trabalhadores resultou em uma investigação sem culpados. Os mineradores também não foram indenizados. As condições de segurança não melhoraram. A verdade é que poucos se importam.
Para compensar os riscos e a má reputação da mina San José, os empregados recebiam salários mais altos que a média de seus colegas em outras minas. O soterramento dos 33 mineiros, ocorrido em 5 de agosto de 2010, às 14:00, é considerado o pior acidente do país nesse tipo de trabalho. O primeiro a ser resgatado foi Florencio Ávalos no dia 13 de outubro e o último foi Patricio Sepúlveda, encerrando assim, o maior resgate nesse tipo de salvamento no mundo. Os 33 mineiros resgatados são como irmãos até hoje.

IMDB; 6,9/ 10
Filmow: 3,5/ 5
Minha nota: 3,7/ 5

Ficha técnica:
Nome original: The 33
Outros nomes: Os 33, Los 33
País: EUA/ Chile.
Ano: 2015
Direção: Patricia Riggen.
Roteiro: José Rivera, Mikko Alanne.
Elenco: Antonio Banderas, Juliette Binoche, Rodrigo Santoro, Gabriel Byrne, Mario Casas, Lou Diamond Phillips , Bob Gunton.

segunda-feira, 15 de outubro de 2018

AMOR SEM PECADO




O filme é uma adaptação do livro As Avós, de Doris Lessing, que, por sua vez, parece que também foi baseado em uma história real.
Roz e Lil são amigas inseparáveis desde a infância. Cresceram, casaram, tiveram filhos, e vivem na paradisíaca bacia de Baxter, um lugar cercado de rochas por todos os lados. O ambiente protegido, "bocejante", além do qual o "verdadeiro oceano rugia e roncava", é o cenário ideal para uma relação cada vez mais simbiótica. Morando em casas vizinhas, elas criam os filhos por conta própria - e eles se tornam adolescentes encantadores. Tão encantadores e próximos, que Roz e Lil não tardam a se envolver uma com o filho da outra. 
Num efeito ambíguo e desconcertante, típico da grande literatura, o que poderia parecer repulsivo é tratado com naturalidade e bom-humor, fazendo a quebra de tabus soar como regra, e não como dramática exceção. Temas como amizade, maternidade e sexualidade ganham novos contornos enquanto Doris Lessing esmiúça as complexidades e armadilhas da forte ligação entre essas duas mulheres, e retrata a força com que elas confrontam as convenções familiares e sociais de sua época.

O filme, altamente edipiano, segue a mesma linha, sem lições de moral. A diretora e roteirista francesa Anne Fontaine (Agnus Dei, Coco antes de Chanel, Gemma Bovery) procura o mesmo tom, leve e elegante e talvez por isso tenha sido criticada por tratar dessa maneira, para muitos leviana, um tema tão transgressor. A história possui várias reviravoltas e um final surpreendente. E deixa um questionamento: até onde vai a liberdade para amar?



IMDB: 6,2/ 10
Filmow: 3,4/ 5
Minha nota: 3,2/ 5



Ficha técnica:
Nome original: Adore.
País: Austrália/ França.
Ano: 2013
Direção: Anne Fontaine.
Roteiro: Anne Fontaine, Christopher Hampton, baseado na obra de Doris Lessing.
Elenco: Naomi Watts, Robin Wright, Xavier Samuel, James Frecheville.