Cinéfilos Eternos

domingo, 18 de novembro de 2018

UN PLUS UNE




Compositor francês viaja para a India para fazer as músicas de um filme. Logo na primeira noite, em que ele pretendia descansar, é realizado um jantar em sua homenagem, porque ele é muito famoso naquele país. Embora com uma dor de cabeça que não passa, a reunião mostrou-se mais interessante do que ele podia esperar, já que conhece a esposa do embaixador da França.
Através da amizade que se constrói entre os dois, ele, Antoine, ela, Anna, vamos passear pela India, seja naquele trânsito louco, seja de trem ou de barco, com destino ao encontro com a grande líder espiritual de lá, Amma. Tudo recheado com muitos diálogos. Anna explicando sua espiritualidade para um Antoine pragmático. Ele, colocando questões práticas que ela nunca se permitiu pensar. É evidente a atração entre os dois. Mas Anna ama seu marido e Antoine acaba de ser pedido em casamento pela namorada Alice, que, aliás, está chegando à India para se encontrar com ele.
Un + Une pode ser visto como só mais um filminho romântico, aliás há um outro filme dentro do filme: uma história de amor acontecida entre dois jovens indianos, um ladrão e uma bailarina, serve de inspiração para o tal diretor indiano que convidou Antoine para fazer a trilha sonora. Como eu ia dizendo, o filme poderia ser só mais uma comédia romântica qualquer, mas Claude Lelouch sempre teve uma maneira especial de contar histórias de amor. Junto ao belo cenário de um país que parece nos convidar a sonhar, com uma belíssima fotografia, embalados pela música de Francis Lai (o mesmo que fez a trilha de Un Homme et Une Femme), temos um casal maduro e que nos conquista a cada minuto. Antoine é bonito, confiante e divertido. Difícil não se envolver pelo seu belo sorriso. Anna é daquelas mulheres que não param de falar, mas longe de ser chata, ela é encantadora e charmosa, daquele tipo que você tem vontade de ouvir por horas e horas.
"-Minha religião é o amor", 
está escrito ao lado de Amma.

Mātā Amritanandamayī Devi, mais conhecida como Amma, é muito admirada dentro e fora da Índia e respeitada como uma humanitarista; muitos a reverenciam como uma Mahatma e uma santa viva: a santa dos abraços.
Lelouch já havia revelado sua intenção de fazer um filme que homenageasse e ao mesmo tempo mostrasse Amma ao mundo.
Assim como os abraços de Amma, Un Plus Une é também um filme generoso. É uma história de sorrisos, de agradecimentos, mesmo com todos os desencontros da vida. Um exemplo disso foi o fato de Antoine só ter conhecido o pai recentemente e longe disso causar estranheza nele, ficou feliz.
Jean Dujardin declarou ter ficado muito comovido com o encontro com Amma. O ator é mais conhecido pelo seu papel em O Artista, pelo qual recebeu o Oscar de Melhor Ator, aliás, ele foi o primeiro ator francês a receber um Oscar de Melhor Ator.
Elsa Zylberstein manifestou sua vontade de voltar à India para rever Amma e disse que foi tocada por ela de uma forma permanente.
IMDB: 6,2/ 10
Filmow: 3,2/ 5
Minha nota: 3,4/ 6

Ficha técnica: 
Nome original: Un + Une
País: França.
Ano: 2015
Direção: Claude Lelouch.
Elenco: Jean Dujardin, Elsa Zylberstein, Christopher Lambert, Alice Pol.





O abraço de Claude Lelouch e Amma

quarta-feira, 7 de novembro de 2018

UM REINO UNIDO


Seretse Khama, o príncipe herdeiro de Bechuanalândia, causa uma polêmica de proporções internacionais ao se casar com uma mulher branca.

Seretse, que recebeu esse nome que significa "a argila que une" era o último de uma linhagem de uma das famílias reais mais poderosas da África. Antes um protetorado britânico, Bechuanalândia tornou-se independente em 30 de setembro de 1966, quando adotou o nome de República do Botswana. Khama foi o primeiro presidente do Botswana, cargo que ocupou desde a independência do país (conquistada por ele) em 1966 até sua morte.
Criado pelo tio, ele foi enviado para educar-se na vizinha África do Sul e no Reino Unido a fim de se preparar para o posto de rei. No Reino Unido, conheceu Ruth e apaixonaram-se. Contra tudo e contra todos, eles se casam e vão morar na África. Mas não imaginavam nem de longe as dificuldades que iriam enfrentar. O matrimônio entre um chefe tribal negro e uma mulher branca teve repercussão para além das fronteiras da Bechuanalândia, e em especial na União Sul-Africana, que, tendo instituído o apartheid, não desejava, em um território vizinho, um casamento inter-racial que pudesse repercutir no país.
Assisti sem pretensões e fui surpreendida por uma história comovente e bastante informativa, que eu não conhecia. Com uma linda fotografia que cria um contraste ótimo entre as duas nações: uma Londres poderosa com o céu sempre escuro e uma África pobre e poeirenta, mas luminosa e em tons de sépia e amarelo, trazendo o ambiente  caloroso.
Ruth, a jovem londrina que foi o pivô de todo esse tumulto, já tinha se destacado como uma mulher corajosa durante a Segunda Guerra Mundial ao conduzir ambulâncias. Foi depois secretária na Lloyds. Conheceu o futuro marido num baile, quando este estagiava como advogado depois dos estudos em Oxford. A paixão assumida entre uma branca e um negro era na época caso raro, mas isso nunca desanimou a mulher que foi presidente da Cruz Vermelha nacional e desde a morte do marido em 1980 até à sua em 2002 era tratada no Botswana como ‘Mohumagadi Mma Kgosi’, que quer dizer “mãe do chefe”. O filho Ian é desde 2008 presidente.
Baseado no livro Colour Bar da Susan Williams lançado em 2006. A diretora Amma Asante MBE é uma ex-atriz britânica ganesa, nascida no sul de Londres e criada em Streatham, Londres. Esse é o terceiro longa dela, uma realizadora com vontade de falar mais alto. A United Kingdom é um drama tão interessante que para mim faltou a diretora se aprofundar mais em algumas partes.

IMDB: 6,8/ 10
Filmow: 3,8/ 5
Minha nota: 3,5/ 5

Ficha técnica:
Nome original: A United Kingdom
País: EUA/ Reino Unido da Grã-Bretanha/ outros
Ano: 2016
Direção: Amma Asante
Roteiro: Guy Hibbert
Elenco: David Oyelowo, Rosamund Pike, Terry Pheto.






Seretse Khama e Ruth.

PAPILLON





A saga de Henri Charrière, vulgo Papillon, homem de caráter duvidoso da Paris dos anos 30, sendo que só cometia pequenos delitos, mas que foi injustamente acusado de um crime de assassinato e condenado à prisão perpétua.
Encaminhado para a prisão na costa da Guiana Francesa, ele conhece Louis Dega, um famoso falsário e forma-se uma cumplicidade entre eles. Henri, que tem o apelido de Papillon devido à uma tatuagem de borboleta fica encarregado de proteger Degas em troca de dinheiro que esse tem como arrumar. Desde o primeiro dia Papillon decidiu que fugiria da fortaleza, missão super arriscada e punida com dois anos na solitária e com cinco, se houver reincidência. Apesar de vermos tanto sofrimento, o filme nos comove pela amizade genuína que se forma entre os dois.
O filme dirigido por Franklin J. Schaffner e com roteiro de Dalton Trumbo foi nomeado para o Oscar de Melhor trilha sonora, da autoria de Jerry Goldsmith, e para o Globo de Ouro de Melhor Ator Dramático, pela interpretação de Steve McQueen. Louis Dega é interpretado por Dustin Hoffman. No Brasil, lançado em 1974 foi um grande sucesso de bilheteria.
O dinamarquês Michael Noer teve a ousadia de dirigir o novo filme de Papillon, dessa vez interpretado por Charlie Hunnam e com Rami Malek no papel de Louis Dega. Sim, o Rami Malek da série Mr Robot e que faz o papel de Freddie Mercury no recente Bohemiam Rhapsody. Como sempre que há remakes de um filme considerado clássico, há apreensão quando à qualidade e normalmente também algumas críticas. Mas vou falar uma coisa, e podem me condenar, mas eu, hoje, gostei mais desse . Claro que o primeiro me impactou mais, eu não conhecia a história, a trilha sonora é maravilhosa e o final talvez tenha me emocionado mais. Até o revi, para tirar as minhas conclusões. Mas a química entre Charlie e o Malek me tirou algumas lágrimas, a amizade entre eles nessa segunda adaptação me convenceu muito mais. Ótimas atuações, figurinos fotografia, penso que o diretor conseguiu manter o ritmo angustiante o tempo todo e acredito que, mesmo para quem já viu o filme ou pelo menos conhece a história, essa versão consegue ainda causar bastante impacto.
Papillon é uma adaptação da obra dita autobiográfica de Henri Charrière. Do outono de 1967 até a primavera de 1968, em cerca de seis meses, ele terminou seu livro chamado "Os caminhos da decadência". Seis meses para centenas de páginas manuscritas em 13 cadernos escolares.
Ele escreveu por horas e horas, por dias e noites, escrevia onde estivesse, fosse no seu escritório, em seu apartamento ou no terraço de algum café.
O livro acabou caindo nas mãos de um famoso editor francês, o Sr Robert Laffont. Este é imediatamente embalado pelo manuscrito. Fechando a última página, ele disse à esposa:

"Se este livro não se tornar um best-seller, meu nome não é mais Robert Laffont. "
O livro foi renomeado Butterfly e lançado em 15 de maio de 1969. A obra alcançou o milhão de cópias vendidas em apenas três meses.
Se tudo foi verdade? Como sabermos? Talvez ele tenha atribuído a sim mesmo outras histórias que viu ou ouviu. Talvez ele tenha resumido na figura dele a vida sofrida de tantos outros. E quem pode dizer que ele também não sofreu, como se até fosse ele próprio? 
Henri já havia passado da idade de 60 anos, quando decidiu escrever. Posteriormente alguns autores apresentaram outras versões do que aconteceu na prisão, um deles tenta provar até mesmo a culpabilidade de Henri. Há acusações inclusive dele não ter sido o autor do livro, hahaha. E agora? Com qual versão você prefere ficar?


IMDB: 7/ 10
Filmow: 3,9/ 5
Minha nota: 4/5

Ficha técnica:
Nome original: Papillon.
País: EUA
Ano: 2018
Direção: Michael Noer
Roteiro: Aaron Guzilkowvski, baseado na obra de Henri Charrière.

Elenco: Charlie Hunnam, Rami Malek.

A letra de Henri Charrière


Henri Charrière







segunda-feira, 5 de novembro de 2018

RAINHA DO MUNDO




Selecionado para vários festivais, inclusive Sundance e Rio, o filme é bem intimista e cheio de camadas. O foco é a amizade de Catherine (Elisabeth Moss) e Virgínia (Katherine Waterston).
Mesmo crescendo juntas, o quanto uma conhece a outra? O quanto você também conhece sua amiga de tantos anos? Se em alguma época houve tantos risos, tanta cumplicidade, talvez no decorrer do tempo e das vivências de cada uma, amigas podem tomar caminhos e ter opiniões e comportamentos hoje conflitantes. Estou escrevendo sobre amigas, no feminino, só por causa do filme. Mas o mesmo pode acontecer entre dois amigos homens, ou entre um homem e uma mulher, é claro. Muitas vezes resta somente um grande carinho pelo que foi, por todas as lembranças, mas fica difícil até de se conversar com certas pessoas. Ainda mais nesses tempos bicudos, não é?
Outra coisa que pode acontecer é que uma pessoa pode agir de maneira diversa, dependendo em que situação, em que lado está.
O norte-americano Alex Ross Perry é apontado como um diretor de um cinema que olha para o passado, não posso concordar nem discordar, porque acho que esse foi o primeiro filme que vi dele. Mas Queen of Earth com certeza alterna o que já foi com o presente. As duas amigas encontram-se na mesma casa de campo onde passaram um tempo no ano anterior. Rainha do Mundo é um drama de difícil interpretação e que aborda também as complexidades de uma depressão.
À primeira vista, vemos uma Virgínia preocupada com a fragilizada amiga que se encontra a ponto de ter um colapso nervoso, já que acabou de perder o pai, um artista famoso, e de terminar um relacionamento. Através de longos diálogos, vamos percebendo uma Ginny fria, que até mesmo repudia a carência e a dependência da amiga, em um verdadeiro desafio ético e moral para nós, espectadores. Vai se desenhando nas expressões de Virgínia um certo triunfo, uma espécie de prazer. Somos sem sentir colocados na posição de julgar. Há também uma névoa que impede de distinguir o quanto Catherine está doente ou se o seu sofrimento faz parte da sua personalidade mimada, como ela é acusada pelo namorado da Ginny. Mas certas cenas sugerem até uma preocupação genuína de Virgínia com a amiga, que parece a cada dia perder mais a sanidade e que talvez o que estamos vendo faça parte da imaginação de Catherine ou mesmo se trate de manipulação.
Intercalando de uma forma confusa as cenas do ano anterior, em que Catherine estava muito feliz e egocentrada, com cenas de alto teor psicológico, as duas personagens muito bem interpretadas indicam que estão nos seus limites, em uma tensão crescente, tudo isso muito bem mostrado pelos enquadramentos de suas expressões, tanto do desespero de uma quanto da passividade mórbida da outra. Um estranhamento devastador. Quem é a boazinha e quem é a má? Existe isso? Somos todos dotados de todas as faces? O filme caminha para um dramático desfecho. Afinal, se houve uma vingança, de quem foi?

IMDB: 6,3/ 10
Filmow: 3.3/ 5
Minha nota: 3,6/ 5

Ficha técnica:
Nome original: Queen of Earth
País: EUA
Ano: 2015
Direção: Alex Ross Perry.
Roteiro: Alex Ross Perry.
Elenco: Elisabeth Moss, Katherine Waterston.