terça-feira, 17 de julho de 2018
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Spike Jonze é bom em criar mundos paralelos, seja na direção de filmes como “Quero Ser John Malkovich”, “Onde Vivem os Monstros” e “Ela” ou mesmo na roteirização de filmes como o insano “Jackass”. Em 2010, ele escreveu e dirigiu o curta I’m Here, no qual, tal como nos trabalhos citados, Jonze constrói um mundo ficcional onde robôs dividem o mundo com seres humanos, ilustrando a própria vida real.
Na trama, Sheldon (Andrew Garfield) é um bibliotecário de Los Angeles, que leva a vida de forma simples e tímida. Sheldon é um robô e vive todos os dias de forma repetitiva e vazia. Esse sentido que faltava é preenchido quando ele conhece Francesca (Sienna Guillory), uma robô divertida, que não se importa nem um pouco com a inferiorização dos robôs por parte dos humanos. Ela só quer se divertir e enxerga amizade em cada ser existente. Sheldon e Francesca se apaixonam e começam a namorar. A relação deles é a mais encantadora possível. Eles vão à festas, fazem passeios noturnos, passeios em parques, assistem shows musicais, como qualquer outro casal no mundo (real ou deles). Só Francesca consegue tirar o robô de sua rotina. Mas, como em todo bom romance, uma dose de drama sempre vai bem para acompanhar. Sheldon prova seu amor incondicional e infinito por sua robômorada e isso culmina em um desfecho comovente, indagando o espectador se ele seria capaz de fazer o mesmo por quem ama.
O mundo proposto por Jonze na história é a própria representação do mundo real, onde os robôs, excluídos pelos seres humanos e vistos como seres inferiores, funcionam como os excluídos da sociedade real. São os pobres, negros, homossexuais, mulheres ou quem quer que seja visto como menor e gera olhares nas ruas por serem quem eles são por direito. Francesca, em uma cena, cola cartazes escrito: I’m Here (Eu Estou Aqui) pelas ruas da cidade. O que ela está gritando para o mundo é que ela não quer só ser vista, mas enxergada também. Ela pode ser considerada excluída, no entanto ela está aqui, quer que seus direitos e deveres sejam validados como os dos seres humanos. Portanto, aquele cartaz demarca que Francesca está aqui neste planeta como qualquer outro ser. E não existem pessoas lutando para serem enxergadas todos os dias fora da tela?
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(continuação da análise com SPOILER)
Outro ponto discutido no filme é acerca do amor. Francesca é desajeitada e quebra uma parte do corpo a cada momento, o que faz Sheldon doar o seu corpo para ela por amor. Isso é lindo, mas convenhamos que passou pela sua cabeça que esse problema poderia ter sido facilmente resolvido se eles comprassem novos membros ou os achassem no ferro velho, só que isso arruinaria a discussão do filme! Além do mais, os robôs são aqui a representação dos seres humanos. As partes perdidas por Francesca são como órgãos ou membros do corpo humano, não são facilmente substituíveis, por vezes só com transplantes, como no filme. E é preciso muito amor para doar uma parte sua para alguém. Seja em vida ou não, são admiráveis os que fazem isso.
No caso do filme, o amor de Sheldon pela namorada era tamanho, que ele preferia se ver sem aquele membro a ter de viver sem ela. Isso é amor intenso, profundo e verdadeiro. E aquele desfecho, quando apenas a cabeça de Sheldon é o que restou de seu corpo, ele prova de uma vez por todas que se doou completamente por aquela relação e por sua amada. É claro que na vida real não seria possível alguém fazer o mesmo, mas a ideia ai é justamente mostrar que as pessoas precisam se doar por completo quando entram em um relacionamento. E isso é tão raro de acontecer. A maioria das pessoas têm sempre interesses pessoais, seja sexo, dinheiro, fama, … porém, não doam nem o tempo ao lado do outro, que dirá se doar por inteiro! Sheldon é, portanto, o amor verdadeiro.
Analisando a parte mais técnica do curta, Spike Jonze conquista os olhos dos espectadores com uma fotografia bela e viva. Somada a uma trilha sonora sensível e de bastante conteúdo, como as músicas There Are Many Of Us (Aska) e Hellhole Ratrace (Girls). As atuações também são ótimas, mesmo os atores escondendo os rostos debaixo das fantasias de robôs.
Assista o curta aqui: https://www.youtube.com/watch?v=1v4CI8MQpdY
Texto e análise: Tom Carneiro.
Filmow: 4,2/ 5
Nota (Tom): 9/ 10
Ficha técnica:
Nome original: I'm Here
Outros nomes: Estou aqui
País: EUA
Ano: 2010
Direção: Spike Jonze
Roteiro: Spike Jonze
Elenco: Andrew Garfield, Sienna Guillory.
FLORES PARTIDAS
Don Johnston (Bill Murray) é um bem-sucedido empresário, solteiro e mulherengo. O nome do personagem é uma alusão ao famoso personagem espanhol, tido como símbolo da sedução e da libertinagem.
O filme começa com ele sendo abandonado por Sherry (Julie Delpy), que o acusa de indiferença.
A conquista profissional e as diversas conquistas amorosas não parecem fazer dele uma pessoa realizada, ou ainda, é como se ele chegasse ao fim da linha e não encontrasse nada lá. A sua falência existencial é visível.
Seu vizinho Winston (Jeffrey Wright) é o seu oposto, com uma família estruturada, mulher e cinco filhos, está sempre ocupado, se dividindo entre eles, seus empregos e sua paixão por jogos e romances policiais.
Quando Don recebe uma carta anônima em papel cor-de-rosa, dizendo que ele tem um filho de 19 anos, Winston o convence a ir em busca das mulheres com quem teve um relacionamento no passado para investigar.
O amigo lhe dá todo o apoio logístico para a empreitada, até mesmo a trilha sonora, incluindo jazz etíope, que o acompanha.
A apatia de Don não se altera, mas embora ele se recuse, acaba seguindo todas as instruções do Winston.
Inicia-se assim um "road movie", mas em direção ao passado. Como se Don tentasse ainda uma última cartada, a de encontrar algum significado ou familiaridade com o mundo à sua volta.
Ele vai em busca então das possíveis mães (Sharon Stone, Frances Conroy, Tilda Swinton, Jessica Lange) do seu possível filho, sempre com um ramos de rosas cor-de-rosa, conforme a recomendação do amigo-detetive.
Sim, o elenco é estupendo, mas a participação é passageira.
Como passageiros foram os seus romances.
Ele procura no passado algo que dê sentido ao seu presente.
Mas em vão...
Seus encontros são como flores partidas, sem encanto.
Coincidência ou não, há sempre um rapaz com idade aproximada daquele que poderia ser seu filho, nos lugares onde ele vai.
Também com o espectador a relação do protagonista é passageira, o filme termina nos deixando com a vontade de ver mais, de conhecermos mais cada história.
Mas o desenlace se parte, como as flores do título.
E não nos resta outro recurso que chegarmos às nossas próprias conclusões.
Recomendo.
IMDB: 7,2/ 10
Filmow: 3,6/ 5
Minha nota: 3,7/ 5
Ficha técnica:
Nome original: Broken Flowers
País: EUA
Ano: 2005
Direção: Jim Jarmusch.
Roteiro: Bill Raden, Sara Driver, Jim Jarmusch.
Elenco: Bill Murray, Jessica Lange, Sharon Stone, Julie Delpy, Tilda Swinton, Frances Conroy, Jeffrey Wright.
Marcadores:
Bill Murray,
Comédia,
Década 2001-2010,
Drama,
Frances Conroy,
Jeffrey Wright,
Jessica Lange,
Jim Jarmusch,
Julie Delpy,
Sharon Stone,
Tilda Swinton
PELOS OLHOS DE MAISIE
Por meio de uma direção intimista, Pelos Olhos de Maisie nos leva a uma reflexão que incomoda: até que ponto o laço sanguíneo entre pais e filhos realmente significa algo para as pessoas? Como uma criança pode crescer com pais que não têm maturidade o suficiente para lhe dar o mínimo de atenção?
Maisie (Onata Aprile) é uma criança esperta - dentro dos limites da sua idade. Filha de um casal em constante conflito, Susanna (Julianne Moore) e Beale (Steve Coogan), ela presencia inúmeras brigas e ofensas mútuas sem entender muito bem o que é dito, mas, mesmo com sua ingenuidade, vemos em seus meigos olhinhos que tudo aquilo está sendo processado e, mais dia ou menos dia, ela irá entender.
Como o título já antecede, a grande sacada do filme é focar-se no ponto de vista da criança. Muitas cenas partem da altura de seus olhos e muitas vezes, enquanto os adultos brigam, riem ou apenas conversam trivialidades, a câmera está centrada nas suas expressões, que variam entre medo, interrogação e alegria, de acordo com o ''clima do ambiente''.
Com a separação dos pais, Maisie entra no famoso pingue-pongue do divórcio, dez dias com cada um.
O pai decide se casar com a babá, Margo (Joanna Vanderham), e, forçada pela situação, sua mãe se casa com Lincoln (Alexander Skarsgard), um bar-man esforçado, fatos que estabelecem um clima a "la"Woody Allen para a trama, mas, sem o seu charme característico. Com tudo nas mãos para entrar erroneamente nesse ramo de relacionamentos esquisitos, o filme conseguiu se mostrar superior a isso (não que não goste de Allen, mas, ele não caberia aqui), pelo simples fato de não focar-se nisso, e sim, na dificuldade de ambos em simplesmente amar a sua própria criança, na sua imensa irresponsabilidade como pais, deixando seus relacionamentos duvidosos como apenas um complemento, não como enredo principal.
Que pai viaja e se esquece da filha? Que mãe vai trabalhar e deixa sua cria sob os cuidados de qualquer um? Nessa emocionante história vemos dois ''desconhecidos'', a babá e o bar-man, demonstrando um amor ímpar e sincero, enquanto os verdadeiros pais, na realidade, estão pouco se importando com a pequena Maisie. O sentimento crescente entre a pequena e Lincoln é uma das coisas mais bonitas e genuínas que vi nos últimos tempos.
Mas, é preciso saber de antemão que a menina é uma graça... eu mesmo estava quase entrando no filme e a ''roubando'' daquele mundo de indiferenças e egoísmo. Excelente filme que merecia ser mais reconhecido. Recomendado!
Texto e avaliação: Marcos Poli
IMDB: 7,5/ 10
Filmow: 4,1/ 5
Nota (Marcos Poli); 9/10
Ficha técnica:
Nome original: What Maisie Knew
País: EUA
Ano: 2012
Direção: David Siegel e Scott McGehee
Roteiro: Carrol Cartwright, Henry James.
Elenco: Onata Aprile, Alexander Skarsgård, Julianne Moore, Joanna Vanderham e Steve Coogan.
Marcadores:
Alexander Skarsgård,
David Siegel,
Década 2011- 2020,
Drama,
Joanna Vanderham,
JULIANNE MOORE,
Onata Aprile,
Scott McGehee,
Steve Coogan
GEMMA BOVERY - A VIDA IMITA A ARTE
Um delicioso filme francês, com cheiro de pão, com um erotismo na medida certa, sem cair na vulgaridade.
Mesmo com a beleza da linda Gemma, que se chama Gemma também na vida real, quem rouba todas as cenas do filme é o personagem Martin Joubert.
Martin (Fabrice Luchini) é uma dessas pessoas encantadoras que é capaz de encontrar um significado até em uma pedra, porque consegue ver além das coisas.
A história de Gemma não seria nada se não fosse por toda a associação que Martin percebe entre ela e a Emma Bovary.
Martin consegue roubar da vida de outras pessoas o que falta na sua rotina.
E ao mesmo tempo, ele as presenteia com uma vida que elas não sonhariam em ter.
Não sabemos se ele fica envolvido e atraído sexualmente por ela ou simplesmente é um espectador da história que se desenrola embaixo dos seus olhos.
Ao ponto de temer pelo desenlace, pois para ele, tudo está caminhando para o mesmo fim do romance Madame Bovary. pelo qual ele é apaixonado.
Junte-se a isso tudo uma bela paisagem da Normandia e uma trilha sonora agradável.
IMDB: 6,4/ 10
Filmow: 3,5/ 5
Minha nota: 3,5/ 5
Ficha técnica:
Nome original: Gemma Bovery
País: França.
Ano: 2015
Direção: Anne Fontaine.
Roteiro: Anne Fontaine, Pascal Bonitzer, Posy Simmonds.
Elenco: Gemma Arterton, Fabrice Luchini
OS NOMES DO AMOR
Le Nom des Gens é um filme leve e ao mesmo tempo profundo.
Porque é sobre as coisas não ditas e também sobre as coisas que se faz para tentar mudar a vida.
Não poderia haver um casal que combinasse menos!
Ele, Arthur Martin (Jacques Gamblin), filho de mãe judia, conservador, contido, desde cedo aprendeu a evitar as palavras, o confronto.
Ela, Bahia Benmahmoud (Sara Forestier), é uma extrovertida filha de pai argelino, com uns incríveis olhos azuis, comprometida com os seus ideais políticos e, ao contrário de Arthur, não tem limites para conseguir o que quer, até mesmo usar os seus encantos físicos e sexuais para converter os homens às suas idéias.
À primeira vista é uma comédia romântica típica, onde os opostos se atraem.
Tem umas cenas improváveis, digamos, até bobas, mas o filme vai crescendo.
As pitadas de humor servem para conduzir com suavidade temas importantes como o holocausto, como o abuso infantil e as marcas que deixam.
E sobre a escolha de se aceitar a vida como ela é ou tentar transformá-la.
As figuras do passado se confrontam de uma maneira inteligente e bem humorada com as figuras do presente desse casal , ele, meio-judeu e ela, meio-muçulmana.
Linda a cena na praia, tanto pela fotografia quanto pelo gesto de Bahia, salvando os caranguejos e pela admiração que ela acaba por despertar em Arthur, com o seu desprendimento e espontaneidade.
Os Nomes do Amor é um filme sobre a intolerância que rege o mundo, sobre o preconceito, sobre os falsos rótulos que se colocam nas pessoas, gerando tanto sofrimento desnecessário.
É lindo também quando Bahia diz que os mestiços são o futuro da humanidade.
Prêmios: César de Melhor Atriz (Sara Forestier) e César de Melhor Roteiro.
Prêmios: César de Melhor Atriz (Sara Forestier) e César de Melhor Roteiro.
IMDB: 7,2/ 10
Filmow: 3,8/ 5
Minha nota: 3,8/ 5
Ficha técnica:
Nome original: Le Nom des Gens
Outros títulos: The Names of Love
País: Bélgica
Ano: 2010
Direção: Michel Leclerc.
Roteiro: Baya Kasmi, Michel Leclerc.
Elenco: Sara Forestier, Jacques Gambli.
O PODER E A LEI
O título nacional dá a entender que veremos um drama de tribunal, ou ao menos um filme bem focado no tema ''jurídico''. Mas, basta o filme começar e já percebemos que se trata de uma trama policial e, conforme o tempo passa, traços de gêneros como thriller / suspense e até um pouco de noir começam a surgir. Baseada no best seller de Michael Conelly e adaptada por John Romano, a história gira em torno de Mickey Haller (Matthew McConaughey), o típico advogado ''porta de cadeia''. Odiado pelos policiais, julgado pela ex-esposa, a promotora de justiça Maggie McPherson (Marisa Tomei), tendo como escritório um Lincoln (carro que dá nome ao título original) e, com métodos nada convencionais e escrúpulos duvidosos, ele lida diariamente com uma vasta gama de criminosos, usando toda sua malícia e versatilidade - e é claro, toda e qualquer falha no sistema - para ganhar muito dinheiro.
Quando o caso de um ''playboy'' corretor de imóveis, Louis Roulet (Ryan Phillipe), que é acusado de agredir e tentar assassinar uma prostituta, cai em suas mãos, ele acredita que tirou a sorte grande. Mas conforme manipula, mente, engana e desenha todos os acontecimentos a seu favor, ele demora a perceber que podem estar fazendo o mesmo com ele. O que segue é um jogo psicológico que nas mãos de um diretor mais experiente poderia ter se tornado um dos principais filmes da década, mas até que Brad Furman não faz feio. Falta pulso, mas sobra força de vontade.
Com uma boa narrativa, o filme não cansa e suas duas horas passam voando. McConaughey está mais contido, mas não menos eficiente, aqui ele emprega seu carisma pra vestir uma personagem ambígua que sustenta a trama tranquilamente. O roteiro tem os seus furos (quase todo thriller os tem), temos alguns movimentos de câmera e close-ups fechados que podem incomodar (me incomodaram), mas no geral, é um filme bem estiloso e uma grata surpresa. Vale a pena conferir mais um bom filme que passou despercebido (ou não teve a repercussão merecida) por crítica e público.
Texto e avaliação: Marcos Poli
IMDB: 7,3/ 10
Filmow: 3,9/ 5
Nota (Marcos Poli) : 8/ 10
Ficha técnica:
Nome original: The Lincoln Lawyer
País: EUA
Ano: 2011
Direção: Brad Furman.
Roteiro: John Romano, Michael Connely.
Elenco: Matthew McConaughey, Ryan Phillippe, Marisa Tomei, William H. Macy e Bryan Cranston.
Dirigido por:
Marcadores:
Brad Furnan,
Década 2011- 2020,
Drama,
EUA,
Marisa Tomei,
Matthew McConaughey,
Ryan Phillippe,
Suspense,
William H. Macy e Bryan Cranston
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