O VAZIO DO DOMINGO - Cinéfilos Eternos

terça-feira, 3 de julho de 2018

O VAZIO DO DOMINGO




Quem espera ver um filme movimentado, não veja esse. É uma história de silêncios, de lacunas, de palavras não ditas, ... de vazios, não só de domingos vazios, de olhares vazios, sem esperança, o retrato do desalento. Um silêncio ensurdecedor, que fala por ele mesmo. Que desabafa, que pergunta, ... também não espere respostas, o autor não oferece esse caminho fácil, talvez não hajam, ... será que existem mesmo respostas para tudo?
Agora prepare-se para se deslumbrar com as interpretações e com as fotografias, não só da imponente casa e do luxo do princípio do filme, mas também do vilarejo entre a Espanha e a França, para onde vai Chiara com Anabel passar uns dias.
Dez dias. É o que Chiara pede à mãe que a abandonou aos oito anos de idade. "Como você sabe que ela é mesmo a sua filha?", perguntam à Anabel. "Eu me vejo nela", responde. Só isso que ela quer da mãe: dez dias, que ela bem sabe nunca irão preencher todos os domingos que ela passou à janela de sua casa, à janela de sua alma, a esperar que a mãe voltasse.
"Por que meu nome é Chiara?" 
"Por causa de um famoso ator italiano, que não lembro o nome, que tinha uma filha com esse nome."

Algumas perguntas simples, que remetem ao passado, à intimidade.
O filme é intenso, também nós buscamos verdades, também nós queremos entender. Fomos condicionadas a não dar muita importância quando um pai vai embora. Mas uma mãe?Chiara nunca entendeu, a sensação de abandono esteve sempre presente em sua vida. Anabel também não entende o que a filha quer dela agora, depois de mais de trinta anos. Não parece ser uma aproximação. Chiara quase não fica com ela, quase não fala com ela. Os silêncios são devastadores. A raiva e a tristeza estão presentes, é fato. Será que Chiara quer justificativas? Mas ela não parece querer ouvir. E, como já disse, algumas coisas não têm explicações. Acontecem, como se tomassem um corpo próprio e sem nosso consentimento ou recusa, seguissem seu destino.
Drama pesado, desconfortável. Doloroso e tocante, ao mesmo tempo. Um rancor que precisava ser vomitado. Uma dívida de amor que precisava ser paga... um drama delicado, construído aos poucos pela visão do cineasta Ramón Salazar. Um filme que vai te deixar talvez também sem palavras...
Ramón Salazar é também diretor do filme 20 Centímetros, uma comédia musical adaptada do livro escrito por ele. O filme gerou diversas polêmicas quando o autor denunciou o Metrô municipal de ter se recusado a permitir as filmagens das cenas finais no local, alegando que um transexual jamais trabalharia nas bilheteria de lá e que a sequência causaria uma imagem errada da empresa e poderia ferir a suscetibilidade de seus trabalhadores. Só rindo, a gente vê cada coisa, em pleno século XXI.
Bárbara Lennie deslumbrou no Festival de Málaga, com sua beleza e frescor, recebendo o Prêmio Belleza Comprometida, dado no ano anterior à atriz Maribel Verdú. Adepta da beleza "de cara lavada", além de ter se tornado uma das atrizes com mais talento e mais solicitadas pela indústria cinematográfica espanhola, a naturalidade de Lennie tem chamado a atenção dos amantes do mundo da moda e da beleza. Pelo filme A Garota de Fogo, de Carlos Vermut, Bárbara Lennie recebeu o Prêmio Goya de Melhor Atriz.
Susi Sánchez é uma atriz espanhola que já participou de inúmeras produções, tanto de teatro, televisão quanto de cinema, trabalhando com os principais diretores espanhóis. Fez vários filmes com Almodóvar.
Quero deixar aqui, não tem legenda, mas para quem se interessar, até porque as imagens falam mais que os diálogos, o link do curta de Ramón Salazar, disponível no youtube, que é o prólogo de La Enfermedad del Domingo, vale a pena, também é de uma beleza...
IMDB: 7/ 10
Filmow: 3,7/ 5
Minha nota: 3,8/ 5

Ficha técnica:
Nome original: La Enfermedad del Domingo
Outros nomes: Sunday's Illness
País: Espanha
Ano: 2018
Direção: Ramón Salazar.
Roteiro: Ramón Salazar.
Elenco: Bárbara Lennie, Susi Sánchez,

Um comentário :

  1. Até que enfim um bom filme no Netflix. Necessariamente lento, não tinha como ser de outra forma, não havia como construir aquela relação tardia e incômoda de outra maneira. Não faz dramas desnecessários, cenas de brigas e ajuste de contas. E sem perdão, reconciliação, redenção. Se bem que a cena final não deixa de ser, à sua maneira, redentora.

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