Cinéfilos Eternos

terça-feira, 17 de julho de 2018

FLORES PARTIDAS



Don Johnston (Bill Murray) é um bem-sucedido empresário, solteiro e mulherengo. O nome do personagem é uma alusão ao famoso personagem espanhol, tido como símbolo da sedução e da libertinagem.
O filme começa com ele sendo abandonado por Sherry (Julie Delpy), que o acusa de indiferença.

A conquista profissional e as diversas conquistas amorosas não parecem fazer dele uma pessoa realizada, ou ainda, é como se ele chegasse ao fim da linha e não encontrasse nada lá. A sua falência existencial é visível.
Seu vizinho Winston (Jeffrey Wright) é o seu oposto, com uma família estruturada, mulher e cinco filhos, está sempre ocupado, se dividindo entre eles, seus empregos e sua paixão por jogos e romances policiais.
Quando Don recebe uma carta anônima em papel cor-de-rosa, dizendo que ele tem um filho de 19 anos, Winston o convence a ir em busca das mulheres com quem teve um relacionamento no passado para investigar. 
O amigo lhe dá todo o apoio logístico para a empreitada, até mesmo a trilha sonora, incluindo jazz etíope, que o acompanha.
A apatia de Don não se altera, mas embora ele se recuse, acaba seguindo todas as instruções do Winston.

Inicia-se assim um "road movie", mas em direção ao passado. Como se Don tentasse ainda uma última cartada, a de encontrar algum significado ou familiaridade com o mundo à sua volta.
Ele vai em busca então das possíveis mães (Sharon Stone, Frances Conroy, Tilda Swinton, Jessica Lange) do seu possível filho, sempre com um ramos de rosas cor-de-rosa, conforme a recomendação do amigo-detetive.
Sim, o elenco é estupendo, mas a participação é passageira.
Como passageiros foram os seus romances.
Ele procura no passado algo que dê sentido ao seu presente.
Mas em vão...
Seus encontros são como flores partidas, sem encanto.

Coincidência ou não, há sempre um rapaz com idade aproximada daquele que poderia ser seu filho, nos lugares onde ele vai.
Também com o espectador a relação do protagonista é passageira, o filme termina nos deixando com a vontade de ver mais, de conhecermos mais cada história.
Mas o desenlace se parte, como as flores do título.
E não nos resta outro recurso que chegarmos às nossas próprias conclusões.
Recomendo.


IMDB: 7,2/ 10
Filmow: 3,6/ 5
Minha nota: 3,7/ 5

Ficha técnica:
Nome original: Broken Flowers
País: EUA
Ano: 2005
Direção: Jim Jarmusch.
Roteiro: Bill Raden, Sara Driver, Jim Jarmusch.
Elenco: Bill Murray, Jessica Lange, Sharon Stone, Julie Delpy, Tilda Swinton, Frances Conroy, Jeffrey Wright.

PELOS OLHOS DE MAISIE




Por meio de uma direção intimista, Pelos Olhos de Maisie nos leva a uma reflexão que incomoda: até que ponto o laço sanguíneo entre pais e filhos realmente significa algo para as pessoas? Como uma criança pode crescer com pais que não têm maturidade o suficiente para lhe dar o mínimo de atenção?

Maisie (Onata Aprile) é uma criança esperta - dentro dos limites da sua idade. Filha de um casal em constante conflito, Susanna (Julianne Moore) e Beale (Steve Coogan), ela presencia inúmeras brigas e ofensas mútuas sem entender muito bem o que é dito, mas, mesmo com sua ingenuidade, vemos em seus meigos olhinhos que tudo aquilo está sendo processado e, mais dia ou menos dia, ela irá entender.

Como o título já antecede, a grande sacada do filme é focar-se no ponto de vista da criança. Muitas cenas partem da altura de seus olhos e muitas vezes, enquanto os adultos brigam, riem ou apenas conversam trivialidades, a câmera está centrada nas suas expressões, que variam entre medo, interrogação e alegria, de acordo com o ''clima do ambiente''.

Com a separação dos pais, Maisie entra no famoso pingue-pongue do divórcio, dez dias com cada um. 
O pai decide se casar com a babá, Margo (Joanna Vanderham), e, forçada pela situação, sua mãe se casa com Lincoln (Alexander Skarsgard), um bar-man esforçado, fatos que estabelecem um clima a "la"Woody Allen para a trama, mas, sem o seu charme característico.  Com tudo nas mãos para entrar erroneamente nesse ramo de relacionamentos esquisitos, o filme conseguiu se mostrar superior a isso (não que não goste de Allen, mas, ele não caberia aqui), pelo simples fato de não focar-se nisso, e sim, na dificuldade de ambos em simplesmente amar a sua própria criança, na sua imensa irresponsabilidade como pais, deixando seus relacionamentos duvidosos como apenas um complemento, não como enredo principal.

Que pai viaja e se esquece da filha? Que mãe vai trabalhar e deixa sua cria sob os cuidados de qualquer um? Nessa emocionante história vemos dois ''desconhecidos'', a babá e o bar-man, demonstrando um amor ímpar e sincero, enquanto os verdadeiros pais, na realidade, estão pouco se importando com a pequena Maisie. O sentimento crescente entre a pequena e Lincoln é uma das coisas mais bonitas e genuínas que vi nos últimos tempos. 

Mas, é preciso saber de antemão que a menina é uma graça... eu mesmo estava quase entrando no filme e a ''roubando'' daquele mundo de indiferenças e egoísmo. Excelente filme que merecia ser mais reconhecido. Recomendado!



Texto e avaliação: Marcos Poli



IMDB: 7,5/ 10
Filmow: 4,1/ 5
Nota (Marcos Poli); 9/10



Ficha técnica:
Nome original: What Maisie Knew
País: EUA
Ano: 2012
Direção: David Siegel e Scott McGehee
Roteiro: Carrol Cartwright, Henry James.
Elenco: Onata Aprile, Alexander Skarsgård, Julianne Moore, Joanna Vanderham e Steve Coogan.

GEMMA BOVERY - A VIDA IMITA A ARTE



Um delicioso filme francês, com cheiro de pão, com um erotismo na medida certa, sem cair na vulgaridade.
Mesmo com a beleza da linda Gemma, que se chama Gemma também na vida real, quem rouba todas as cenas do filme é o personagem Martin Joubert.
Martin (Fabrice Luchini) é uma dessas pessoas encantadoras que é capaz de encontrar um significado até em uma pedra, porque consegue ver além das coisas.
A história de Gemma não seria nada se não fosse por toda a associação que Martin percebe entre ela e a Emma Bovary. 
Martin consegue roubar da vida de outras pessoas o que falta na sua rotina.

E ao mesmo tempo, ele as presenteia com uma vida que elas não sonhariam em ter.
Não sabemos se ele fica envolvido e atraído sexualmente por ela ou simplesmente é um espectador da história que se desenrola embaixo dos seus olhos.
Ao ponto de temer pelo desenlace, pois para ele, tudo está caminhando para o mesmo fim do romance Madame Bovary. pelo qual ele é apaixonado.
Junte-se a isso tudo uma bela paisagem da Normandia e uma trilha sonora agradável.

IMDB: 6,4/ 10
Filmow: 3,5/ 5
Minha nota: 3,5/ 5

Ficha técnica:
Nome original: Gemma Bovery
País: França.
Ano: 2015
Direção: Anne Fontaine.
Roteiro: Anne Fontaine, Pascal Bonitzer, Posy Simmonds.
Elenco: Gemma Arterton, Fabrice Luchini

OS NOMES DO AMOR



Le Nom des Gens é um filme leve e ao mesmo tempo profundo.
Porque é sobre as coisas não ditas e também sobre as coisas que se faz para tentar mudar a vida.

Não poderia haver um casal que combinasse menos!

Ele, Arthur Martin (Jacques Gamblin), filho de mãe judia, conservador, contido, desde cedo aprendeu a evitar as palavras, o confronto. 
Ela, Bahia Benmahmoud (Sara Forestier), é uma extrovertida filha de pai argelino, com uns incríveis olhos azuis, comprometida com os seus ideais políticos e, ao contrário de Arthur, não tem limites para conseguir o que quer, até mesmo usar os seus encantos físicos e sexuais para converter os homens às suas idéias.

À primeira vista é uma comédia romântica típica, onde os opostos se atraem.
Tem umas cenas improváveis, digamos, até bobas, mas o filme vai crescendo.
As pitadas de humor servem para conduzir com suavidade temas importantes como o holocausto, como o abuso infantil e as marcas que deixam.
E sobre a escolha de se aceitar a vida como ela é ou tentar transformá-la.

As figuras do passado se confrontam de uma maneira inteligente e bem humorada com as figuras do presente desse casal , ele, meio-judeu e ela, meio-muçulmana.
Linda a cena na praia, tanto pela fotografia quanto pelo gesto de Bahia, salvando os caranguejos e pela admiração que ela acaba por despertar em Arthur, com o seu desprendimento e espontaneidade.
Os Nomes do Amor é um filme sobre a intolerância que rege o mundo, sobre o preconceito, sobre os falsos rótulos que se colocam nas pessoas, gerando tanto sofrimento desnecessário.
É lindo também quando Bahia diz que os mestiços são o futuro da humanidade.

Prêmios: César de Melhor Atriz (Sara Forestier) e César de Melhor Roteiro.

IMDB: 7,2/ 10
Filmow: 3,8/ 5
Minha nota: 3,8/ 5

Ficha técnica: 
Nome original: Le Nom des Gens
Outros títulos: The Names of Love
País: Bélgica
Ano: 2010
Direção: Michel Leclerc.
Roteiro: Baya Kasmi, Michel Leclerc.
Elenco: Sara Forestier, Jacques Gambli.

O PODER E A LEI



O título nacional dá a entender que veremos um drama de tribunal, ou ao menos um filme bem focado no tema ''jurídico''. Mas, basta o filme começar e já percebemos que se trata de uma trama policial e, conforme o tempo passa, traços de gêneros como thriller / suspense e até um pouco de noir começam a surgir. Baseada no best seller de Michael Conelly e adaptada por John Romano, a história gira em torno de Mickey Haller (Matthew McConaughey), o típico advogado ''porta de cadeia''. Odiado pelos policiais, julgado pela ex-esposa, a promotora de justiça Maggie McPherson (Marisa Tomei), tendo como escritório um Lincoln (carro que dá nome ao título original) e, com métodos nada convencionais e escrúpulos duvidosos, ele lida diariamente com uma vasta gama de criminosos, usando toda sua malícia e versatilidade - e é claro, toda e qualquer falha no sistema - para ganhar muito dinheiro.

Quando o caso de um ''playboy'' corretor de imóveis, Louis Roulet (Ryan Phillipe), que é acusado de agredir e tentar assassinar uma prostituta, cai em suas mãos, ele acredita que tirou a sorte grande. Mas conforme manipula, mente, engana e desenha todos os acontecimentos a seu favor, ele demora a perceber que podem estar fazendo o mesmo com ele. O que segue é um jogo psicológico que nas mãos de um diretor mais experiente poderia ter se tornado um dos principais filmes da década, mas até que Brad Furman não faz feio. Falta pulso, mas sobra força de vontade.

Com uma boa narrativa, o filme não cansa e suas duas horas passam voando. McConaughey está mais contido, mas não menos eficiente, aqui ele emprega seu carisma pra vestir uma personagem ambígua que sustenta a trama tranquilamente. O roteiro tem os seus furos (quase todo thriller os tem), temos alguns movimentos de câmera e close-ups fechados que podem incomodar (me incomodaram), mas no geral, é um filme bem estiloso e uma grata surpresa. Vale a pena conferir mais um bom filme que passou despercebido (ou não teve a repercussão merecida) por crítica e público. 




Texto e avaliação: Marcos Poli


IMDB: 7,3/ 10
Filmow: 3,9/ 5
Nota (Marcos Poli) : 8/ 10


Ficha técnica:
Nome original: The Lincoln Lawyer
País: EUA
Ano: 2011
Direção: Brad Furman.
Roteiro: John Romano, Michael Connely.
Elenco: Matthew McConaughey, Ryan Phillippe, Marisa Tomei, William H. Macy e Bryan Cranston.

Dirigido por: 


LUGARES ESCUROS




Baseado no livro de mesmo título da autora Gillian Flynn, responsável por trazer ao mundo o sucesso literário e de cinema: Garota Exemplar, Lugares Escuros é inferior ao outro longa, contudo a história intrigante e misteriosa de Flynn consegue prender do início ao fim, ainda mais devido à excelente atuação da atriz sul-africana, Charlize Theron.
A história parte de uma fragilizada mulher, Libby Day (Theron), que teve a infância marcada pelo assassinato de sua mãe e suas duas irmãs pelo próprio irmão. Traumatizada, falida e sem perspectivas de um futuro melhor, Libby Day é abordada por um jovem rapaz, Lyle (Nicholas Hoult), que participa de um grupo macabro conhecido como O Grupo da Morte, no qual fãs de histórias reais de assassinatos e assassinos investigam casos famosos na tentativa de descobrir a verdade. Lyle oferece dinheiro para que Libby participe de uma das sessões do clube, descrevendo sobre a noite do crime, já que ela fora a única sobrevivente, sem escolhas, Libby aceita participar e isso traz à tona uma história cheia de mistérios e contradições.
Infelizmente a adaptação peca na direção. Apesar da história prender a atenção por causa do mistério que é contado através de flashes-back ao longo de todo o filme, alguns momentos poderiam ter sido feitos de forma mais ágil, evitando deixar a história um pouco cansativa. E, em contradição com a edição e fotografia estilosa e moderna de Garota Exemplar, Lugares escuros é mais simples e contém alguns problemas, mas nada que comprometa a trama.
Há de se elogiar a história, que não é mérito tanto do filme, mas de um livro bem intrigante, o que facilitou na adaptação. Outro ponto positivo é a atuação de Charlize Theron, como sempre dando um espetáculo de interpretação. Chloë Grace Moretz também faz uma participação especial e mostra todo seu talento de forma bem madura.
No mais, este é um filme que vai agradar tanto aos amantes do suspense, como a quem gosta de um bom drama. Vale a pena!



Por: Tom Carneiro.
IMDB: 6,2/ 10
Filmow: 3,1/ 5
Nota (Tom Carneiro): 6/ 10

Ficha técnica:
Nome original: Dark Places.
País: EUA. França, Reino Unido da Grã-Bretanha, Irlanda do Norte.
Ano: 2015
Direção: Gilles Paquet-Brenner
Roteiro: Gilles Paquet-Brenner, Gillian Flynn.
Elenco: Charlize Teron, Chloë Grace Moretz, Corey Stoll, Nicholas Hoult.

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