Cinéfilos Eternos

segunda-feira, 13 de agosto de 2018

A SOCIEDADE LITERÁRIA E A TORTA DE CASCA DE BATATA





Imagine um lugar adorável como a Ilha de Guernsey... imagine personagens também adoráveis... junte tudo com uma história encantadora, acompanhada de literatura e uma pitoresca torta de casca de batata...
Um pouco de história sobre a ilha: em outubro de 1855, Victor Hugo chegou a Guernsey, debaixo de chuva e vento, em busca de refúgio. "O exílio não me afastou só da França, mas sim do mundo", ele escreveu numa carta. 
Nesse retiro isolado e selvagem, uma dependência britânica a pouco mais de 40 quilômetros da Normandia, no litoral da França, Hugo passou o período mais produtivo de sua vida... 
Um lugar de contemplação silenciosa, caminhadas vigorosas à beira dos penhascos e baías sedutoras. "Mesmo com chuva e neblina, a chegada a Guernsey é esplêndida", ele escreveu numa carta à mulher. 
Hoje, os viajantes que chegam de balsa, vindos da Inglaterra, de Jersey ou da França, têm a mesma visão do porto, com os barcos pesqueiros balançando gentilmente e as fileiras de casas subindo as encostas das colinas. Hugo se instalou numa delas, na parte alta da cidade: uma mansão chamada Hauteville.

Mas nem tudo é glamour na história, que é adaptada do livro de mesmo nome e que tem tomadas em Londres também. Guernsey é uma das Ilhas do Canal invadidas pela Alemanha durante a Segunda Guerra Mundial.
Juliet Ashton, interpretada por Lily James, que também faz parte do elenco de Mamma Mia! Lá Vamos Nós de Novo, é uma escritora que mora em Londres. Seu editor, Sidney, é tipo sua única família. Juliet, mesmo conquistando aos poucos seu espaço no mundo literário, sente um certo desconforto, como se precisasse buscar algum fio solto que desse realmente significado ao seu trabalho.
Um dia, ela recebe uma carta de um tal de Dawsey Adams (o cativante Michiel Huisman de A Incrível História de Adaline e do mais recente Perfeita para Você, também da Netflix), que mora na tal ilha. Pela carta, ela fica sabendo de um clube do livro que foi fundado lá durante a guerra, o que a faz decidir visitar Guernsey. A princípio, pensando em escrever um artigo sobre os membros de A Sociedade Literária e A Torta de Casca de Batata e voltar. Mas Juliet acaba construindo uma forte ligação com eles...
“Acho que é possível pertencermos a uma pessoa antes de a conhecermos.”
...e querendo escrever um livro sobre as experiências deles na guerra. Em especial, Juliet se vê profundamente inspirada pela história de Elizabeth (Jessica Brown Findlay), a fundadora do clube de leitura, a única que não está na ilha. Mas que é cercada de mistérios. Ninguém quer falar sobre Elizabeth e a sua intenção de escrever sobre o clube não é bem-vista e até mesmo hostilizada por Amelia (Penelope Wilton).
Começamos a ver o filme pensando ser apenas mais uma história romântica. Delicadamente encantadora, isso já nos envolve. Mas no desenrolar se mostra muito além disso. A escritora insegura dá lugar a uma mulher que finalmente sabe o que quer, à medida que vai descobrindo a trajetória de Elizabeth. Não só seu lado literário aflora, mas seus verdadeiros sentimentos. O vazio que ficou de seu passado também conturbado é preenchido naquela ilha. Ela volta a sentir uma sensação de pertencimento.
Realmente, os personagens são lindos, até nós espectadores desejamos ficar com eles. Ainda tem as crianças adoráveis. Lily James transmite muita naturalidade no seu papel. O diretor inglês, Mike Newell, também dirigiu um dos meus filmes favoritos: Quatro Casamentos e Um Funeral, pelo qual recebeu o Prêmio Bafta de Melhor Filme e de Melhor Direção e também o César de Melhor Filme Estrangeiro. Além de O Sorriso de Mona Lisa, Harry Potter e O Cálice de Fogo, O Amor nos Tempos do Cólera e muitos mais.
Se você é como eu e gosta de um belo romance e de conhecer lugares encantadores, mesmo que seja na tela de cinema, recomendo fortemente.
IMDB: 7,3/ 10
Filmow: 4,2/ 5
Minha nota: 3,7/ 5

A SOCIEDADE LITERÁRIA E A TORTA DE CASCA DE BATATA.
Ficha técnica:
Nome original: The Guernsey Literary and Potato Peel Pie Society.
País: EUA. Reino Unido da Grã-Bretanha e Irlanda do Norte.
Ano: 2018
Direção: Mike Newell 
Adaptação do livro de mesmo nome escrito por: Annie Barrows e Mary Ann Shaffer. 
Roteiro: Don Roos,Thomas Bezucha, Kevin Hood.Elenco: Lily James, Matthew Goode, Glen Powell, Michiel Huisman, Jessica Brown Findlay, Katherine Parkinson, Penelope Wilson, Tom Courtenay, Kit Connor.




Lar de Victor Hugo, Guernsey é ilha de baías e penhascos no Canal de Mancha.


quarta-feira, 8 de agosto de 2018

SABERÁ O QUE FAZER COMIGO




Isabel conhece Nicolas, que é fotógrafo, em um hospital e ele a convida para sua exposição. Ela não dá importância mas o destino acaba levando-a lá, acompanhando uma amiga. 

Começa um relacionamento entre eles. Isabel, sempre enigmática, não fala muito de sua vida. Entendo ela. Algumas dores são só nossas. Falar delas é como se minimizasse o seu valor. E diminuí-las é como querer livrar-se delas. E se desprender delas é como trair nossos sentimentos. 

Mas Nicolas também esconde um segredo: sofre de uma epilepsia grave. Após uma crise testemunhada por ela, ele diz que quer terminar, que não quer que ela passe por isso de novo. Que não é justo dividir esse sofrimento com ela. 

Isabel também vive envolvida com a depressão da mãe.

Tantos problemas. Qual será a solução? Apoiar o Nico é acumular mais uma chance de sofrer. Viver o seu amor ou ficar na superfície, não se deixar afetar de verdade? 

O sofrimento e as perdas fazem parte da vida. Pelo menos foi como crescemos ouvindo. É um filme sobre perdas e ganhos. Sobre lutos. Sobre o que fazer com o que restou.




Filme delicado e sensível, ao mesmo tempo que profundo. Interpretações bem tocantes. Diálogos incríveis que nos levam a suspirar e refletir. A fotografia é linda também. As paisagens maravilhosas parecem nos mostrar que existe a feiura no mundo, mas também existe a beleza. O quanto conseguimos captar dessa beleza, da natureza e da vida, é o que nos sustentará. Ou nos derrubará.


IMDB: 6,6/ 10
Filmow: 3,8/ 5
Minha nota: 3,7/ 5



Ficha técnica:
Nome original: Sabrás qué Hacer Conmigo
País: México.
Ano: 2015
Direção: Katina Medina Mora.
Roteiro: Katina Medina Mora, Emma Bertrán, Samara Ibrahim.
Elenco: Ilse Salas, Pablo Derqui

quarta-feira, 1 de agosto de 2018

A PRINCESA DE MONTPENSIER




Filho do escritor e resistente nascido em Lyon, René Tavernier ( autor de escritos clandestinos sobre grandes escritores, como Aragon), Bertrand Tavernier começou sua carreira cinematográfica como assistente de Jean-Pierre Melville, realizando em seguida pequenos documentários, antes de ser encarregado das relações com a imprensa e começar seu trabalho de historiador do cinema. Essas atividades influenciaram profundamente o seu estilo. O diretor francês conta uma história de amor tendo como pano de fundo as guerras entre católicos e protestantes durante o período da Reforma do século XVI.
O filme baseia-se no romance de Madame de La Fayette. A primeira edição de La Princesse de Montpensier foi publicada anonimamente em 1662. Essa obra precede o grande best seller do século XVII escrito por Madame de La Fayette, La Princesse de Clèves, publicado em 1678. Desde que foi publicado, A princesa de Clèves jamais deixou o foco da polêmica.
Ocorrendo durante as guerras religiosas do século anterior, A Princesa de Montpensier é a história dos amores entrelaçados. Antes Marie de Mézières, bela jovem filha de um aristocrata local , a princesa se vê às voltas com um marido arranjado, o Príncipe Philippe de Montpensier, que não lhe dá muita atenção e com o Duque de Guise, um amante não muito confiável. Lutando contra seus próprios desejos para resignar-se e submeter-se ao marido, como devia uma mulher de sua época, Marie acaba despertando a paixão de outros dois homens igualmente próximos ao herdeiro de Charles IX: seu tutor e conselheiro, o Conde de Chabannes, e o também nobre Duque de Anjou, futuro Rei Henri III.
Marie vai assim tornar-se o objeto dessas paixões rivais e arrebatadas. Chabannes talvez seja o único que a conhece de verdade, já que passava muitas horas com ela, na ausência do seu marido, que o instruiu a lhe ensinar poesia e arte. Marie era viva, interessada, queria sempre ir além. Tinha capacidade argumentativa, contestava.
Conde de Chabannes: "A fé dá substância à nossa esperança e nos faz conhecer certas realidades que não podemos ver." (São Paulo, em Hebreus)
Marie de Montpensier: O mesmo poderia ser dito sobre o amor.

Porque para a princesa, o amor era muito importante. Tanto que em uma certa parte do filme ela, infeliz, diz para si própria que se o Conde de Chabannes desistiu da guerra, ela também ia desistir do amor. Quero dizer, ela colocou a satisfação dos seus sentimentos no mesmo patamar que o da guerra. Porque para ela não importava morrer se era para viver sem amor.
Acredito que o conde era o que mais a amava. Apaixonado pela princesa que não se importa com ele, ele perde-se em nome de um ideal ultrapassado. O amor, exaltado em qualquer outro lugar, aqui é descrito como um veneno que revela a hipocrisia social e conduz à tragédia: “aquele que está apaixonado é muito fraco”. E devemos ressaltar o caráter não apenas ingênuo e desprovido de culpa da princesa, porque ela de uma certa maneira é cruel com o conde, colocando-o em situações constrangedoras.
Tavernier optou por uma fotografia que faz o filme parecer pinturas da época, os costumes também foram retratados, inclusive a primeira noite de núpcias do casal sob o olhar atento da família à espera da mancha de sangue no lençol para provar que a moça era, de fato, uma virgem.O figurino de Caroline de Vivaise é impecável!.
Mas o destaque do filme fica mesmo com a atriz Mélanie Thierry, vencedora do Prêmio César de Melhor Atriz Revelação por seu papel em Um Novo Caminho (Le Dernier pour la Route). Com seus lindos olhos azuis e transparentes e os fartos seios, a ex-modelo hipnotiza não só os quatro nobres cavalheiros do filme.
Marie de Montpensier não existiu, é apenas a personagem de um romance. Talvez inspirada na Duquesa de Roquelaure, a Marie de Bourbon. Os outros personagens sim, fazem parte da história francesa, não precisamente nessa ordem. A repressão aos huguenotes, nome dado aos protestantes franceses pelos católicos e os reis eram católicos, culminou na famosa e trágica Noite de São Bartolomeu, um verdadeiro massacre dos protestantes, que aconteceu entre 23 e 24 de agosto de 1572, em Paris, no dia de São Bartolomeu.
Portanto, a linha entre a realidade e a ficção é secundária aqui. Devemos nos prender no conceito de que a personagem principal não é uma pessoa que existiu, mas que poderia ter existido. Uma síntese de possíveis tipos de pessoas que existiram e possíveis tipos de destinos - uma biografia do possível!
"A felicidade é uma perspectiva pouco provável na aventura da dura vida, para uma alma tão orgulhosa como a sua."
Marie é ao mesmo tempo vítima, amante, amada, carrasco, ... ela é a fêmea que sofre, sua grande beleza, realçada pelas suas maneiras, conquistaram muitos homens. Ela é aquela que provocou muito amor, mas sem jamais tê-lo vivido plenamente.

IMDB: 6,5/ 10
Filmow: 2,9/ 5
Minha nota: 3,7/ 5

Ficha técnica:
Nome original: La Princesse de Montpensier.
País: França.
Ano: 2011
Direção: Bertrand Tavernier.
Roteiro: Bertrand Tavernier, François-Olivier Rousseau, Jean Cosmos.
Elenco: Mélanie Thierry, Gaspard Ulliel, Lambert Wilson, Grégoire Leprince-Ringuet, Raphael Personnaz







A primeira edição do romance foi publicada
anonimamente em 1662.