Cinéfilos Eternos: Mia Hansen-Løve
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quarta-feira, 16 de maio de 2018

TUDO PERDOADO



Em termos arquiteturais, Mia Hansen-Løve, nascida em Paris, estrutura os seus filmes em um terreno virado de cabeça para baixo e não abre qualquer flanco para a previsibilidade. Formada em Alemão e Filosofia, começou como atriz nos filmes de Olivier Assayas, com quem é atualmente casada. Pequenos papéis, mas que a levaram ao cinema e ao seu primeiro filme, uma crua saga familiar. A filmografia de Mia Hansen-Love ainda é pequena, variada, mas extremamente autoral.
Em Tout est Pardonné, a história gira em torno de Victor, um escritor com um sorriso cativante, Annette, uma linda loura com traços semelhantes a uma pintura, que trabalha com arte, e a filha deles, Pamela. Victor se auto-intitula um perdedor. Annette, apaixonada, tenta mudar esse pensamento dele e ela mesma acredita que as coisas se ajeitarão. Mas aos poucos, aquele modo de viver de Victor começa a afetá-la muito. O marido é até um bom pai e, apaixonado por ela também, pode ser muito carinhoso. Mas às vezes violento. Não abandona seus maus hábitos, passa os dias vadiando e se drogando à noite. Aos poucos, a relação é minada.
Até onde devemos levar o perdão? Annette tem a capacidade de salvar Victor com seu amor? Até que ponto sua filha deve sofrer as consequências de sua má escolha?
O filme dá a sensação o tempo todo de que nada está acontecendo, tipo "vou ali buscar um copo d'água, enquanto não se desenrola". Mas é exatamente essa a história: nada está acontecendo, ao mesmo tempo que tudo está. Às vezes, na rotina do dia a dia, não percebemos que o nada está tomando conta de nossas vidas, de uma forma tão implacável, é preciso tomar um rumo, é preciso dar um sentido às coisas, mas a inércia toma conta de nossas vidas, nos paralisa, nos ameaça: "olha, se você não me aceitar, você vai ver só".
O título fala do perdão, mas o perdão é ceder ou é se isentar da culpa?
Ouvimos e lemos todos os dias, principalmente em livros de auto-ajuda, que devemos sempre dizer para as pessoas queridas o quanto as amamos, se preciso que as perdoemos, porque podemos morrer ou a pessoa morrer sem termos falado, mas sempre me pergunto: será? Essas palavras não serão sem sentido se no momento não estamos com vontade de pronunciá-las? Estaremos pensando realmente na pessoa ou em nossa culpa pelo não dito? Acho que nos cobramos demais... acho que precisamos nos perdoar mais...
IMDB: 6,6/ 10
Minha nota: 3,8/ 5
Ficha técnica:
Nome original: Tout est Pardonné
País: França.
Ano: 2007
Direção e roteiro: Mia Hansen-Løve
Elenco: Paul Blain, Marie-Christine Friedrich, Constance Rosseau, Victoire Rosseau.

O QUE ESTÁ POR VIR



Nathalie é uma professora de filosofia apaixonada pelo trabalho. Percebe-se que ela consegue transmitir essa paixão para os seus alunos. Fabien, um ex-aluno, tem uma admiração especial por ela e ela por ele. Eles estão sempre trocando livros e ideias. Seu marido e seus dois filhos divertem-se um pouco com esse entusiasmo dela e dizem que Fabien é o filho que ela queria ter. Nathalie orgulha-se de estar sempre aberta às mudanças, enquanto Heinz, também professor, é muito conservador. Mas tudo caminha em harmonia, trabalho e família, a não ser pela mãe, que sofre de depressão e está sempre dando trabalho.
Mas um dia, para seu espanto, o aparentemente moderado marido lhe comunica que conheceu outra pessoa e que vai sair de casa.
“Eu imaginei que você ia me amar para sempre", ela diz.
Depois de 25 anos de casada, os filhos já com suas vidas, Nathalie vai perceber que sua liberdade sempre foi teórica e que agora dispõe dela na prática e precisa saber o que fazer com ela. Pela primeira vez, ela não tem que cuidar de ninguém e pensar só em si própria pode não ser uma tarefa fácil.
Nathalie é confrontada com várias provas, além do divórcio. Em meio a tantas coisas se desmoronando ao mesmo tempo, Nathalie terá que procurar um abrigo dentro de si mesma. O que ela consegue fazer corajosamente. Em nenhum momento o filme é piegas ou desalentador. A nossa personagem mostra que é preciso seguir em frente. Ela não sabe se o que está por vir será melhor ou pior. A perda de laços e o confronto com o tempo de validade das coisas, dos sentimentos, não são fáceis de encarar. E ela não finge isso. Mas a forçam a se reinventar.
O longa foi premiado com o Urso de Prata de Melhor Direção no Festival de Berlim de 2016. O cinema de Mia é aquele que dá a impressão que nada está acontecendo na história, ela não se preocupa com o ritmo, passeia tranquilamente pelas suas tomadas, sem pressa, captando com naturalidade o dia a dia dos personagens, ao ponto de nos sentirmos íntimos deles, parece que acordamos com eles, tomamos café com eles, ... Também nós, junto com Nathalie, interpretada com grande habilidade pela diva Isabelle Huppert, revisitamos nossas memórias, refletimos sobre nossas perdas e nossos ganhos, filosofamos um pouco com ela, fumamos um cigarro, quem sabe um baseado? Também nós terminamos o filme com um olhar, misto de apreensão e curiosidade, sobre o que está por vir.
IMDB: 7/ 10
Minha nota: 3,9/ 5

Ficha técnica:
Nome original: L'avenir 
País: França, Alemanha.
Ano: 2016
Direção e roteiro: Mia Hansen-Løve
Elenco: Isabelle Huppert, André Marcon, Roman Kolinka.