Só o título já nos faz pensar: Happy End... final feliz?
Não sei se eu entendo como uma ironia. Talvez seja esse o final feliz da maioria das vidas e as pessoas não estão nem percebendo...acreditam na felicidade sem perceberem o vazio de suas existências!
Talvez essa seja apenas mais uma história entre tantas.
Ah, o filme é sobre uma família que não se comunicava, dirão muitos. Sem conseguirem perceber os problemas de comunicação em sua própria família.
A incomunicabilidade já começa a ser mostrada em outro núcleo da família, formada pela ex-mulher de Thomas e sua filha Eve.
O filme inicia com Eve se queixando da mãe, filmando seus movimentos e dizendo não suportar as reclamações dela. Dando claramente razão ao pai por a ter deixado e, ao mesmo tempo, ressentida com ele, porque a deixou com ela.
Até uma amiga de Eve percebeu o quanto a mãe é distante, não presta atenção nela. Eve diz que tentou conversar com a mãe sobre isso, mas que ela disse não saber o que ela quer. Mas será que Eve sabe do que a mãe precisa? A mãe de Eve toma antidepressivos, será que ela se importa com a mãe?
A mãe é internada por ter tomado uma overdose de antidepressivos. Com a internação da mãe, que está muito grave, Eve vai morar como pai, na casa em Calais.
Eve agora faz parte do núcleo Laurent:
seu pai, Thomas, é médico. Casado de novo e com um bebê pequeno e tendo que lidar agora também com a filha de 13 anos. Mesmo assim, está tendo um caso com outra mulher, fato que Eve vai descobrir fuxicando no notebook dele;
Anais, a nova esposa de seu pai, e seu irmãozinho;
seu avô, Georges, prestes a fazer 85 anos, é um homem que desistiu de viver, nada mais lhe interessa;
sua tia Anne, irmã de seu pai, parece ser a mais sensata da família, ela que comanda os negócios, uma empreiteira. Está tendo que lidar com um grave acidente, um desmoronamento, e tentando uma solução a fim de evitar demandas judiciais;
seu primo, Pierre, filho de Anne, que parece sempre revoltado com aquela aparente família feliz e não quer seguir os mesmos passos. No noivado de Anne, ele aparece com um grupo de refugiados. Não que Pierre se importe muito com a crise dos refugiados que tomou conta da cidade, mas ele faz isso apenas para incomodar aquela família tão perfeita!
Cinco anos depois de seu último filme, Amor, o diretor austríaco Michael Haneke, que estudou psicologia, filosofia e teatro na Universidade de Viena, nos provoca, como é sua intenção, em mais um filme sobre a natureza humana: o quanto pode haver de perversidade onde nem imaginamos. Os filmes de Haneke sugerem perguntas e não respostas. Happy End estreou no Festival de Cannes 2017 e foi um dos indicados à Palma de Ouro.
O próprio filme é formado por breves conversas, não se aprofunda nos personagens e nem nos diálogos. Como uma família em que todos estão sempre com pressa para viver suas vidas individualmente, ou para voltar para seus relacionamentos com o celular, para seus emails e redes sociais. Não há tempo para o outro.
Eve acusa o pai de não amar ninguém. Mais do que ninguém, ela sabe o que o pai sente, na verdade o que o pai não sente, é como se ela estivesse falando dela mesma. O avô também percebe que com Eve pode se abrir, identifica nela a mesma solidão, a mesma frieza ("como é fácil fazer alguém ficar quieto")... Talvez a genética seja útil para ele realizar seus propósitos...
Afinal, o que é um final feliz?
IMDB: 6,8/ 10
Minha nota: 3,8/ 5
Ficha técnica:
Nome original: Happy End
País: França.
Ano: 2017
Direção e roteiro: Michael Haneke
Elenco: Isabelle Huppert, Jean-Louis Trintignant, Mathieu Kassovitz, Fantine Harduin. Toby Jones.
