Cinéfilos Eternos: Mathieu Kassovitz
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quinta-feira, 7 de junho de 2018

VIDA SELVAGEM



"Foi o homem branco quem inventou o quadrado, na cidade tudo é quadrado, as casas, as televisões, os escritórios. Mas na natureza tudo é redondo."

Eu diria que é a versão francesa de "Capitão Fantástico", mas como é anterior, então "Capitão Fantástico" é a versão americana dele.

Paco e Nora pareciam partilhar do mesmo sonho: viver e criar seus filhos livremente, longe da sociedade de consumo e das convenções sociais. Eram nômades, depois Nora começou a desejar mais estabilidade, viraram semi-nômades, mas isso em vez de satisfazer à Nora, muito pelo contrário, a fez começar a desejar raizes. Nora queria se estabelecer em algum lugar, Nora queria que Paco construísse uma casa para a família. Era o fim do entendimento para o casal. Eles se separam e Paco fica longe dos filhos, a justiça dá a guarda para a mãe. Para Paco, sobraram umas pequenas férias. Contra a decisão, Paco foge com os dois filhos, do terceiro era só padrasto e ele não quis acompanhá-lo, embora ele tenha insistido para levá-lo. Okyesa e Tsali tinham sete e oito anos na época. Perseguidos pela polícia, eles são obrigados a deixar o carro e o trailer para trás e a percorrer a França pelo seu lado mais selvagem, com poucos recursos, encarando o mundo, fora dos padrões da civilização, a não ser pela instrução, que Paco fazia questão de dar para eles. Todas as matérias e também leitura de livros.
Baseado em uma história real, Paco e seus dois filhos viveram assim por 11 anos, até que foram encontrados. A história ganhou as manchetes dos noticiários policiais franceses.

Afinal, quem tinha razão? Quando Paco e Nora ficaram juntos juraram amor eterno e criar seus filhos juntos, daquela maneira não convencional. Separados, Paco ficou privado de criar seus filhos de acordo com suas convicções e até mesmo de conviver com eles. Okyesa e Tsali tinham a escolha de voltarem para a mãe, se essa fosse a vontade deles, mas com sete e oito anos tinham capacidade de escolha? E à medida que foram crescendo, e adolescente quer se identificar com outros adolescentes, mas o modo de vida deles era completamente diferente, já começavam a se questionar: que liberdade era aquela que não permitia que eles fizessem nada?

Pode-se desculpar um pai que sequestra os filhos?
O diretor Cédric Kahn não quer julgar.

IMDB: 6,6/ 10

Minha nota: 3,5/ 5

Ficha técnica:
Nome original: Vie Sauvage
Outros nomes: Wild Life
País: França, Bélgica
Ano: 2014
Dirigido por: Cédric Kahn.
Roteiro: Cédric Kahn, Nathalie Najem
Com: Mathieu Kassovitz, Céline Sallette, Jules Ritmanic, David Gastou.

Xavier Fortin e os filhos, a história que inspirou o filme.

segunda-feira, 21 de maio de 2018

HAPPY END



Só o título já nos faz pensar: Happy End... final feliz?
Não sei se eu entendo como uma ironia. Talvez seja esse o final feliz da maioria das vidas e as pessoas não estão nem percebendo...acreditam na felicidade sem perceberem o vazio de suas existências!
Talvez essa seja apenas mais uma história entre tantas. 
Ah, o filme é sobre uma família que não se comunicava, dirão muitos. Sem conseguirem perceber os problemas de comunicação em sua própria família.


A incomunicabilidade já começa a ser mostrada em outro núcleo da família, formada pela ex-mulher de Thomas e sua filha Eve. 
O filme inicia com Eve se queixando da mãe, filmando seus movimentos e dizendo não suportar as reclamações dela. Dando claramente razão ao pai por a ter deixado e, ao mesmo tempo, ressentida com ele, porque a deixou com ela.
Até uma amiga de Eve percebeu o quanto a mãe é distante, não presta atenção nela. Eve diz que tentou conversar com a mãe sobre isso, mas que ela disse não saber o que ela quer. Mas será que Eve sabe do que a mãe precisa? A mãe de Eve toma antidepressivos, será que ela se importa com a mãe?
A mãe é internada por ter tomado uma overdose de antidepressivos. Com a internação da mãe, que está muito grave, Eve vai morar como pai, na casa em Calais.


Eve agora faz parte do núcleo Laurent:
seu pai, Thomas, é médico. Casado de novo e com um bebê pequeno e tendo que lidar agora também com a filha de 13 anos. Mesmo assim, está tendo um caso com outra mulher, fato que Eve vai descobrir fuxicando no notebook dele;

Anais, a nova esposa de seu pai, e seu irmãozinho;
seu avô, Georges, prestes a fazer 85 anos, é um homem que desistiu de viver, nada mais lhe interessa;
sua tia Anne, irmã de seu pai, parece ser a mais sensata da família, ela que comanda os negócios, uma empreiteira. Está tendo que lidar com um grave acidente, um desmoronamento, e tentando uma solução a fim de evitar demandas judiciais;
seu primo, Pierre, filho de Anne, que parece sempre revoltado com aquela aparente família feliz e não quer seguir os mesmos passos. No noivado de Anne, ele aparece com um grupo de refugiados. Não que Pierre se importe muito com a crise dos refugiados que tomou conta da cidade, mas ele faz isso apenas para incomodar aquela família tão perfeita!


Cinco anos depois de seu último filme, Amor, o diretor austríaco Michael Haneke, que estudou psicologia, filosofia e teatro na Universidade de Viena, nos provoca, como é sua intenção, em mais um filme sobre a natureza humana: o quanto pode haver de perversidade onde nem imaginamos. Os filmes de Haneke sugerem perguntas e não respostas. Happy End estreou no Festival de Cannes 2017 e foi um dos indicados à Palma de Ouro.


O próprio filme é formado por breves conversas, não se aprofunda nos personagens e nem nos diálogos. Como uma família em que todos estão sempre com pressa para viver suas vidas individualmente, ou para voltar para seus relacionamentos com o celular, para seus emails e redes sociais. Não há tempo para o outro.


Eve acusa o pai de não amar ninguém. Mais do que ninguém, ela sabe o que o pai sente, na verdade o que o pai não sente, é como se ela estivesse falando dela mesma. O avô também percebe que com Eve pode se abrir, identifica nela a mesma solidão, a mesma frieza ("como é fácil fazer alguém ficar quieto")... Talvez a genética seja útil para ele realizar seus propósitos...


Afinal, o que é um final feliz?


IMDB: 6,8/ 10
Minha nota: 3,8/ 5


Ficha técnica:
Nome original: Happy End
País: França.
Ano: 2017
Direção e roteiro: Michael Haneke
Elenco: Isabelle Huppert, Jean-Louis Trintignant, Mathieu Kassovitz, Fantine Harduin. Toby Jones.