Cinéfilos Eternos: Cordula Kablitz-Post
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quinta-feira, 17 de maio de 2018

LOU



Lou Andreas-Salomé, a mulher por quem Nietzsche chorou.
Famosa por sua beleza e inteligência, Lou Andreas-Salomé nasceu em St. Petersburg, em 12 de fevereiro de 1861, filha de um general do exército de Czar, e teve sua educação restrita apenas às aulas particulares de um pastor protestante. Aos 19 anos, iniciou seus estudos em Teologia e História da Arte na Universidade de Zurique. Em uma ida à Roma, conheceu um dos maiores filósofos de todos os tempos: Nietzsche, que estava acompanhado de um amigo e também filósofo Paul Rée. Ambos se apaixonaram por Salomé e a pediram em casamento. No entanto, Salomé, sedenta de independência e impaciente por viver, não queria se prender a ninguém. Dizia que jamais iria se casar. Não queria envolver-se emocionalmente e nem sexualmente. Porque acreditava que a renúncia à satisfação física liberava forças espirituais criadoras. Mas ao mesmo tempo, não queria perder de maneira nenhuma a convivência com os dois, onde havia uma troca muito rica e fez uma proposta inusitada a eles: morarem os três juntos. O que para a época seria um escândalo! "Uma camaradagem com o objetivo da realização espiritual plena". Nietzsche ainda tentou convencê-la do contrário, queria que ela se casasse com ele, disse-lhe que o destino dela foi selado no seu nascimento como mulher, imaginou os filhos gênios que teriam juntos. Salomé argumentou que ele é que queria mudar o mundo todo, que ela queria apenas mudar o destino dela. Lou insistia no seu casamento a três, onde trocariam pensamentos, estudariam juntos e escreveriam. Mas como brigou com Nietzsche, acabou partindo apenas com Paul, o que o deixou completamente arrasado. Dizem que ela foi o grande amor da vida dele, justo ele, que era contra esse sentimento, por achar ser uma fraqueza do Homem.
Porém foi com o poeta alemão Rainer Maria Rilke, 14 anos mais jovem, que a escritora acabou não resistindo e por quem se apaixonou. "Nenhum iniciado o precedeu":
"Em tudo que é belo,
tu vens ao meu encontro.
Tu, minha brisa de primavera.
Tu, minha chuva de verão.
Tu, minha noite de junho com mil caminhos,
nos quais nenhum iniciado me precedeu.
Estou em ti."
Do relacionamento nasceu um livro com as correspondências que trocaram durante anos, Briefwechsel mit Rilke, em tradução livre Correspondência com Rilke. Nessa época Salomé estava casada com Friedrich C. Andreas , um professor universitário, um casamento que nunca se consumou, conforme o desejo dela. Não foi por causa de Friedrich que ela deixou Rilke, mas por sua obsessão por ela. Ele queria que ela se separasse do professor e se casasse com ele. Queria passar todos os seus minutos com ela.
"Apaga-me os olhos,
ainda posso ver-te.
Tranca-me os ouvidos,
ainda posso ouvir-te.
E sem pés posso ainda
ir para ti.
E sem boca posso ainda
invocar-te.
Quebra-me os ossos e posso ainda
apertar-te,
com o coração como com a mão.
Tapa-me o coração
e o cérebro baterá.
E se me deitares fogo ao cérebro,
hei de continuar a trazer-te no sangue."
Parecia que o mundo todo queria casar-se com Lou, só porque ela não queria. Rilke dizia-lhe que não conseguia respirar sem ela. Tudo o que o seu espírito livre não queria ouvir, sua resposta é que ela não conseguia respirar com ele.
Mais tarde, Lou conheceu Sigmund Freud através de amigos interessados por psicanálise. Foi a primeira mulher a ser aceita no círculo psicanalítico de Viena, e tornou-se amiga pessoal e discípula de Freud. A amizade entre os dois durou pelo resto de suas vidas, na qual Salomé era uma das poucas pessoas que o famoso psicanalista confiava seus pensamentos mais íntimos. Lou foi uma das primeiras psicanalistas femininas e uma das primeiras mulheres a escrever sobre a psicologia da sexualidade feminina, por exemplo, no seu ensaio Anal und Sexual (1916), uma obra admirada por Freud.
Lou Andreas-Salomão, além de ter inspirado alguns dos homens mais importantes do mundo, foi um ícone feminino do século XX. Escandalizou a sociedade da época por quebrar várias regras morais e por ter tido vários amantes. Lembrando que as regras eram tão intransigentes que Lou teve que se esconder atrás de um pseudônimo masculino quando lançou seus primeiros trabalhos. O próprio Rilke, aconselhado por ela, trocou seu nome, Rene, que era muito feminino, para Rainer, olha que pérola!
Mesmo com os rígidos obstáculos de época no caminho para a emancipação e realização plena da mulher na sociedade, Lou conseguiu alcançar feitos não apenas equivalentes como até superiores a seus pares masculinos, e, ainda assim, é lembrada geralmente à sombra deles. Uma injustiça que, em parte, este filme conduzido pela diretora alemã Cordula Kablitz-Post tenta corrigir. A maior parte da obra da filósofa, poeta e psicanalista é pouco conhecida no Brasil e ainda não possui tradução para o português. Grande lástima não ter recebido o destaque que merecia.
O longa utiliza uma sacada muito legal também, quando mostra as cidades por onde Lou passava (ela viajava muito): as imagens são estáticas, enquanto Lou mantinha-se em constante movimento, físico, intelectual e moral. Graças ao filme, é possível finalmente se aprofundar um pouco mais na fascinante história dessa mulher que vivia de forma livre e contestadora. Ela diz para a mãe: "eu nunca vou ser o que você espera que eu seja" e, em uma parte do filme, parece que a mãe olha para ela de uma forma que aprova (e admira!) sua maneira de ser.
"No mais profundo de si mesmo, o nosso ser rebela-se em absoluto contra todos os limites. Os limites físicos são-nos tão insuportáveis quanto os limites do que nos é psiquicamente possível: não fazem verdadeiramente parte de nós. Circunscrevem-nos mais estreitamente do que desejaríamos.” (Lou Andreas- Salomé)
No final, fica uma dúvida levantada por Ernst Pfeiffer, que estava escrevendo suas memórias: quem era aquela moça tão dedicada que cuidava dela? Por que Lou tirou de suas mãos e guardou o livro do Rilke, que ele estava manuseando?

1882, Lou Andreas Salomé, Paul Rée and Friedrich Nietzsche


IMDB: 6,4/ 10
Minha nota: 3,8/ 5
Ficha técnica:
Nome original: Lou Andreas-Salomé, The Audacity to be Free.

Outros nomes: In Love with Lou,
País: Alemanha/ Áustria/ Itália/ Suiça
Ano: 2016
Direção e roteiro: Cordula Kablitz-Post
Elenco: Nicole Heesters, Katharina Lorenz e Liv Lisa Fries como Lou, Matthias Lier, Alexander Scheer, Julius Feldmeier, Philipp Hauß, Harald Schrott.