Ana sofre de ataques de ansiedade. Ela tem Toma sempre ao seu lado, o que lhe dá uma certa segurança. Aos poucos, Ana e Toma vão se afastando dos amigos e até de suas famílias, fica talvez mais confortável assim. Mais confortável para quem?, eu me pergunto. Porque o que vemos aqui é que, conforme Ana começa a se recuperar, com a ajuda da psicanálise, a vida em comum do casal começa a se desagregar. Porque ali, muito embora haja uma linda história de amor, há também uma história de dependência. Sim, sabemos que Ana fica mais confiante por saber que Toma está sempre ao seu lado, sabe que poderá contar com ele em suas crises, ele a conhece bem, sabe como lidar, ela também o conhece bem, a intimidade facilita, não precisa ficar tão constrangida. Mas devo dizer que a principal dependência dessa ligação é a de Toma em relação à Ana. O transtorno de Ana, a sua fragilidade, dá a Toma um certo poder sobre ela. Ao terrível sentimento de impotência por ver a pessoa amada sofrendo daquela maneira, e não digo que Toma não sofra junto, mas o fato de viverem praticamente um para o outro dá a ele uma segurança na relação. Ele é importante para ela, ninguém mais disputa a atenção dela. Entendem? Mesmo com toda a beleza do amor entre eles, afinal ele é um homem que não hesita em correr em auxílio da amada, o filme mostra que ali há um relacionamento doentio. Que nem as pessoas depressivas que não querem motivos para se alegrar, Toma sente que, a cada melhora de Ana, ele a perde um pouco. Ele a ama? Sim, mas não é aquele amor desprendido onde o que importa é que quem você ama esteja feliz. O amor de Toma alimenta-se dos conflitos não resolvidos de Ana. Ele está sempre ali para apoiá-la, para compreendê-la, para ouvi-la... para lhe abraçar sempre que ela precisar. Toma não percebe que precisa mais de Ana do que ela dele.
Do cineasta romeno Calin Peter Netzer, que ganhou em 2013 o Urso de Ouro no festival de Berlim com o pesado “Instinto Materno”. "Ana, Meu Amor" é também um filme denso, complexo, os planos sempre fechados em que ele é filmado reforçam a sensação da intimidade doentia entre o casal, do isolamento.
À medida que Ana vai se recuperando, a câmera também vai abrindo, afastando-se dos rostos deles. O roteiro deixa de se fixar apenas no casal para mostrar que Ana começa a perceber o quanto são importantes outras coisas e outras pessoas para sua saúde mental, mas também para revelar que a nova situação também os afasta, um do outro.
De um naturalismo impressionante, é um filme comovente e que torna-se um prato cheio para o estudo da psicanálise.
IMDB: 7- 10
Minha nota: 3,8-5
Ficha técnica:
Nome original: Ana, Mon Amour
País: Romênia.
Ano: 2016
Direção: Calin Peter Netzer
Roteiro: Lulia Lumanâre.
Elenco: Diana Cavallioti, Mircea Pos
