Cinéfilos Eternos: Jean Rochefort
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segunda-feira, 10 de setembro de 2018

UMA PASSAGEM PARA A VIDA



Quem seria aquele homem misterioso que desembarcou do trem naquela pacata, quase dormente cidade francesa? O que ele poderia querer de lá? Até o hotel estava fechado quando ele lá chegou. Ninguém pelas ruas... Não, de jeito nenhum aquele homem parecia um turista. Expressão cansada, sombria, ele não era de muita conversa, ... mas isso não era nenhum problema para Manesquier, um professor de poesia aposentado. Ele era capaz de falar pelos dois e Milan, assim se chamava o cavalheiro solitário, despertou imediatamente sua curiosidade. E até seus devaneios. De onde teria vindo? Por quais aventuras teria passado aquele homem? Quais mais ainda tinha a intenção de viver?
Manesquier o convida para se hospedar em sua enorme e antiga casa. Onde viveu sua vida toda, cercado de livros e lembranças... Milan não tem outra alternativa. Mesmo não sendo de muitas palavras, simpatiza com o professor, a princípio resistente, aos poucos aceita de bom grado a companhia daquele bom homem. Também ele se imagina nessa vida, tranquila e sem tropeços.
Milan pede para ficar até sábado, no sábado precisará ir embora. Manesquier pensa "o que será que ele tem para fazer no sábado?". E diz para Milan que sábado ele também terá um compromisso. O velho professor acaba desconfiando das verdadeiras e escusas intenções do seu hóspede, mas isso não o assusta. Pelo contrário, o fascina! Manesquier sonha como sua vida poderia ter sido diferente se houvesse ousado mais.
"A doçura é muito perigosa" / "por quê?"/ "porque você se acostuma a ela".
Ele se acomodou com sua vida confortável e de poucos problemas e agora pensa "o que terei perdido?". Ele viveu talvez a vida de todos os romances que leu, de todas as músicas que tocou em seu antigo piano, comeu e bebeu bem, nunca lhe faltou um teto para dormir, teve seus amores, uma boa vida, ... mas agora algumas de suas certezas estavam caindo por terra, e ele se perguntava: "o que terei perdido?".
A amizade improvável que se formou entre aqueles dois é aquele tipo de experiência que, embora fugaz, a gente leva para sempre.
Os dois atores estão sensacionais em seus papéis. Por coincidência, os dois faleceram em 2017, grande perda para o cinema. Jean Rochefort foi um premiado ator francês, com mais de cinco décadas de carreira. Esse não é o primeiro filme do diretor Patrice Leconte que ele atuou, inclusive foi indicado ao Premio César de Melhor Ator por O Marido da Cabeleireira. Em 1978, ele já tinha recebido esse prêmio por sua atuação em Le Crabe-Tambour. Ele também era o escultor famoso em O Artista e a Modelo e acho que seu último filme foi Floride, de Phillippe Le Guay, que eu também adorei! Johnny Hallyday, nome artístico de Jean-Philippe Smet foi um cantor e ator francês de origem belga por parte do pai. Foi um dos principais astros do rock'n'roll francês. Atuou em filmes de Claude Lelouch, Guillaume Canet, Godard, Costa-Gravas, entre outros. A participação da atriz francesa Édith Scob (O Que está Por Vir, Holy Motors, Horas de Verão, Os Olhos Sem Rosto) foi pequena mas bem emocionante.
Patrice Leconte, premiado diretor, dispensa apresentações.
Imperdível!

IMDB: 7,3/ 10
Filmow: 3,4/ 5
Minha nota: 3,8/ 5

Ficha técnica:
Nome original: L'Homme du Train.
Outros títulos: Main on The Train.
País: França.
Ano: 2002
Direção: Patrice Leconte
Roteiro: Claude Klotz.
Elenco: Jean Rochefort, Johnny Halliday, participação Edith Scob, Isabelle Petit-Jacques.





Johnny Halliday, Patrice Leconte e Jean Rochefort, na Itália, em 2002, para apresentar L'Homme du Train na competição da Mostra de Veneza.











quarta-feira, 16 de maio de 2018

A VIAGEM DE MEU PAI



Último filme do premiado ator francês Jean Rochefort, figura constante no tapete vermelho dos principais festivais de cinema. Ele trabalhou em cerca de 150 filmes, com diretores como Buñuel, Bertrand Tavernier, Patrice Leconte. Após atuar sob a direção de Fernando Trueba em O Artista e a Modelo (2012), obra inspirada no escultor Aristide Maillol, Rochefort afirmou que deixaria o cinema, mas antes filmou, com Philippe Le Guay, para nosse deleite, Floride, no original.
Philippe Le Guay (Pedalando com Molière), roteirista, fez sua estreia na direção de longas em 1989, com o filme Les Deux Fragonard. Ele mesmo escreve os roteiros dos seus filmes e também escreve para a revista Cinématographe.
Floride é sobre um octagenário que está perdendo a memória. As lembranças vão e voltam para Claude Lherminier, em uma belíssima atuação de Jean Rochefort. É como se ele fosse um viajante no tempo, fica confuso, ele pensa que está em um lugar e de repente está em outro, em um tempo e é outro... Sua filha mais velha, Carole (Sandrine Kiberlain) é quem cuida dele, com carinho e dedicação, deixando de lado até a própria vida, mas ele está sempre lembrando da outra filha, Alice, que não o procura mais. Com a aproximação do seu aniversário, ele deseja cada vez mais a presença da filha da Flórida. A Viagem do Meu Pai é principalmente uma história sobre o relacionamento entre pai e filha. O filme é uma pérola, daqueles que dá vontade de ver duas vezes seguidas, eu pelo menos vi. Porque mal acaba e já temos saudade de algumas passagens.
É um drama com ares de comédia. Le Guay disse que o longa nasceu da sua vontade de trabalhar com o Rochefort, que ele considera ser uma instituição no cinema francês. Sandrine Kiberlain já era amiga de Jean há quinze anos, então ele pensou: "Por que não juntar os dois? Só precisava de uma boa história, e as boas histórias não são difíceis quando você escreve para atores que sabe que farão com brilho não importa o quê”, explicou o diretor numa entrevista realizada no Rio. Bem, o resultado da adaptação da peça de Florian Zeller foi um filme encantador, com as peripécias do Claude querendo boicotar a filha, que está sempre arrumando cuidadoras para ele, que acha que não precisa. O filme é sensível, até porque trata de assuntos como a senilidade e a proximidade da morte, mas sem nunca ser piegas. A viagem de Claude é também a de Carole, uma jornada emocional, de entrega e de amor. E com certeza embarcamos juntos nessa saborosa viagem.
IMDB: 6,5/ 10
Minha nota: 4/ 5

Ficha técnica:
Nome original: Floride
País: França.
Ano: 2017
Direção: Philippe Le Guay
Roteiro: Florian Zeller, Jeròme Tonnerre, Philippe Le Guay
Elenco: Jean Rochefort, Sandrine Kiberlain.