DOR E GLÓRIA - Cinéfilos Eternos

sexta-feira, 16 de agosto de 2019

DOR E GLÓRIA





Os comentários são que o vigésimo primeiro longa do grande, maravilhoso, cineasta espanhol, Pedro Almodóvar, é um filme autobiográfico, o que ele nega.
Não é a minha autobiografia, mas sim, é o filme que me representa mais intimamente.” Almodóvar continua: "Estou sempre me projetando nos meus filmes. Mas o que é certo é que, embora todos os meus filmes me representem, este me representa muito mais do que qualquer outro." "Fui um pouco mais longe", o cineasta finaliza. "Mais do que nunca, minha alma está no filme."

"Tudo começou quando meus problemas nas costas me deixaram confinado em casa. Um dia me vi como um personagem", ele conta.

O filme começa com a imagem do cineasta Salvador Mallo no fundo de uma piscina. De olhos bem abertos, os olhos que refletem a sua dor quase constante e sua tentativa em procurar algum alívio. Nas costas, uma grande cicatriz de uma cirurgia, na alma uma grande cicatriz do que a dor o impede de fazer.

Em mais uma parceria com Antonio Banderas, Almodóvar declara que ele era o mais legítimo para fazer o papel. "Porque viveu ao meu lado muitas das coisas que estão no filme. Saíamos juntos todas as noites nos anos 80." Acertou na escolha, Banderas está demais!
Mas não é uma autobiografia, diz ele, muita coisa é ficção.
Almodóvar vai além da vida dele: e se tivesse acontecido assim?, talvez ele tenha se perguntado. "Através do texto você não só abre as portas da sua intimidade como desenvolve possibilidades que não existiram e isso me emociona,” ele garante.
A princípio a gente nem reconhece Almodóvar como personagem e nem como diretor. As cores fortes estão lá, tanto nos cenários, na decoração do apartamento que inclui a pop art, e nos figurinos. Mas não é um filme vibrante, como estamos acostumados a ver. Não é um filme exagerado, como ele costuma fazer. É um drama?, me perguntaram. Sim e não, eu respondo. Porque aí já reconhecemos o nosso cineasta, que foge do melodrama e prefere dar um tom mais poético à história.
À Penélope Cruz, uma de suas musas, ele confiou o papel da jovem mãe de Salvador Mallo. A cena em que somos apresentados a ela, pobre, lavando roupa no rio, mas em vez de focar nos problemas, ele nos mostra o rosto dela se iluminando ao cantar com as amigas e o rosto do filho se encantando, também ele herdando o prazer que a música traz. A humilde moradia onde o menino Salvador morava era enfeitada com flores, regada a sol e amor.
Como Pedro, Salvador começou a dar aulas para os moços da vizinhança, a ensiná-los a escrever e a somar. "Tinham 17, 18 anos", conta Almodóvar. Como Pedro, Salvador escrevia cartas a pedido dos vizinhos que não sabiam escrever. Foi aí que surgiu o interesse em escrever e a criar histórias.
Algumas histórias do filme são reais então, mas outras não. Almodóvar diz que a cena da conversa entre ele e a mãe já idosa nunca ocorreu, que ele não tinha na verdade essa relação com ela. Na cena improvisada, que não estava no roteiro, no entanto, ele admite que toca em algo que não tinha tocado antes. "Essa sequência resume de um modo profundo e doloroso algo que não tem a ver tanto com minha mãe, mas com minha infância e adolescência." "Este filme não tem tanto a ver com minha relação com ela, mas com minha sexualidade e com o fato de ter sido um menino diferente", conta o diretor em entrevista para o El País. Mas a história da mortalha é verdadeira, só que aconteceu com a irmã dele, não com ele, a mãe deu instruções à filha de como gostaria de ser enterrada e assim foi feito.
O fato é que seus filmes, inspirados na sua mãe ou não, sempre são protagonizados por mulheres fortes. Sobre retratar sua mãe em um filme, o diretor indica que a imagem mais fiel é a da personagem interpretada por Chus Lampreave em A Flor do Meu Segredo, que é ela em cada frase.
Não, afirma Almodóvar, ele não consumiu heroína como o diretor retratado. Cocaína sim, heroína não. Que nem o personagem, os analgésicos não faziam efeito nele, daí a ideia de fazê-lo recorrer à heroína para suportar a dor.
Outras semelhanças com o filme são que Almodóvar nunca estudou cinema profissionalmente pois sua família não possuía condições financeiras e, como Salvador, também ele cantava e já fez parte de uma banda (Salvador, de um coral).
Mas Almodóvar esclarece que não se apaixonou por um pedreiro,aos nove anos, o que poderia ter acontecido.
Dolor y Gloria é um filme onde os afetos vão sendo construídos, um filme de amor e de dor e de reconciliações. Não mostra a ascensão do diretor, a história já se passa depois dos momentos de glória e numa fase improdutiva, que dói.
A dor é mostrada em cada detalhe: nos mocassins que ele passa a calçar, por não suportar se abaixar para amarrar os cadarços dos tênis. Nos inúmeros quadros que cobrem todas as paredes de seu apartamento, a lhe fazerem companhia. Na lembrança do amor maduro que ele não foi capaz de salvar do vício da heroína. "O amor não é suficiente. O amor talvez mova montanhas... mas não basta para salvar a pessoa que você ama." Nas lembranças de uma infância, que chegam como destinadas a cobrar um desfecho.
"Os filmes da minha infância sempre cheiravam a urina e a jasmim. E à brisa de verão."
E assim é Dolor y Gloria, como a urgência de uma necessidade fisiológica e ao mesmo tempo tem perfume e frescor.
Parabéns mais uma vez, meu diretor amado!


IMDB: 7,8/ 10
Filmow: 4,2/ 5
Minha nota: 4,3/ 5

Ficha técnica:
Nome original: Dolor y Gloria.
País: Espanha
Ano: 2019
Direção: Pedro Almodóvar
Roteiro: Pedro Almodóvar
Elenco: Antonio Banderas, Penélope Cruz, Asier Etxeandia, Cecilia Roth, Leonardo Sbaraglia, Nora Navas, Julieta Serrano. Texto: Cecilia Peixoto.

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